Romeu Zema, candidato do Partido Novo à Presidência da República, abriu a campanha eleitoral deste segundo semestre com um gesto simbólico: participou de uma missa na Paróquia Nossa Senhora da Conceição e São José, em Montes Claros, norte de Minas Gerais, na manhã de domingo, 16. Logo depois da celebração, concedeu entrevistas à imprensa em que abordou três eixos centrais: sua experiência como governador na atração de investimentos, críticas à política externa do governo Lula e o cenário de união da direita para um eventual segundo turno.
Quem é Romeu Zema e por que ele se coloca como outsider
Zema governou Minas Gerais entre 2019 e 2024 pelo Novo, partido que se posiciona como liberal na economia e avesso a alianças tradicionais. Empresário do setor de varejo antes de entrar na política, ele se elegeu em 2018 com o discurso de "administrar como empresa" e se manteve no cargo após uma tentativa frustrada de impeachment em 2023. A base do discurso que levou à missa em Montes Claros é a mesma: vender a imagem de gestor que conhece os bastidores do setor produtivo, diferente, segundo ele, de quem só passou pela vida pública.
Ao falar sobre investimentos, o candidato resumiu a proposta em uma frase: "Cliente bom você trata bem". A ideia é se apresentar como alguém que entende a relação entre governo e iniciativa privada, algo que, na avaliação dele, o governo federal atual tem negligenciado — principalmente no campo das relações internacionais.
As críticas à política externa do governo Lula
Zema mirou em três pontos da diplomacia brasileira recente. O primeiro foi a sinalização de substituição do dólar como moeda de referência nas transações comerciais — algo que já foi ventilado por integrantes do governo em discussões sobre usar yuan ou euro. Para o candidato, essa discussão é desconectada da realidade: "Como se mudar para euro ou yuan fosse resolver os nossos problemas", disse.
O segundo ponto foi a aproximação com Cuba, Irã e Venezuela. Zema classificou esses países como "não democráticos" e acusou o governo de se queixar das sanções impostas pelos Estados Unidos a essas nações após se aliar a elas. A crítica alinha-se ao perfil de eleitor que o Novo costuma buscar: o liberal que vê com desconfiança qualquer aproximação com governos de esquerda na América Latina e Oriente Médio.
O terceiro ponto foi a relação com os Estados Unidos. Zema acusou o Palácio do Planalto de "tratar mal" parceiros comerciais importantes, o que, segundo ele, pode trazer consequências para o agronegócio, setor que responde por boa parte das exportações brasileiras e depende diretamente da abertura do mercado norte-americano.
E o segundo turno? O que Zema disse sobre união da direita
Quando perguntaram sobre uma possível união dos candidatos de direita em torno de um nome no segundo turno, Zema recorreu a um exemplo internacional: as eleições do Chile. A referência é direta. No país vizinho, em 2021, os partidos de centro e direita se uniram em torno de uma candidatura única depois que a convenção fracassou em apresentar um nome competitivo, e a estratégia deu certo. Zema sinaliza que o mesmo movimento pode acontecer aqui caso nenhum candidato de centro-direita se consolide nas pesquisas.
Hoje, o campo mais à direita tem pelo menos três pré-candidatos com intenção de voto: Zema, Flávio Bolsonaro (PL) e possivelmente nomes como Ronaldo Caiado (União Brasil), caso entre na disputa. O discurso de união é uma forma de mostrar flexibilidade para acordos eleitorais, mesmo vindo de um partido que historicamente se orgulha de não fazer coligações.
O que isso muda na prática para o eleitor?
Para quem acompanha a corrida presidencial, três pontos merecem atenção a partir desse primeiro dia de campanha. Primeiro, Zema tenta se reposicionar após anos de desgaste em Minas Gerais, apostando na pauta econômica e na crítica à diplomacia como diferenciadores. Segundo, o candidato joga luz no tema da política externa — um assunto que historicamente pesa pouco no voto, mas que ganha relevância quando envolve sanções comerciais e fechamento de mercados. Terceiro, a sinalização de abertura à aliança com o bolsonarismo mostra que o Antipetismo continua sendo o fio condutor mais forte da campanha, mesmo entre candidatos que se vendem como liberais.
Na prática, o discurso de Zema em Montes Claros não traz propostas novas concretas — é mais uma plataforma de lançamento do que um programa de governo detalhado. O eleitor que quiser comparar os candidatos da direita precisa olhar para itens práticos: reforma tributária, carga sobre folha de pagamento, abertura comercial, regras para o agronegócio e postura frente ao Mercosul. Esses são os pontos que vão separar o discurso do que efetivamente será entregue caso um candidato desse campo chegue ao Palácio do Planalto.
A corrida presidencial começou oficialmente neste domingo, e apesar de todos os candidatos ainda estarem em fase de pré-campanha, o recado de Zema é claro: a direita já se movimenta para o segundo turno, e ele quer estar no centro dessa articulação.
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