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Juros altos no Brasil não são para crescer, diz Galípolo

Juros altos no Brasil não são para crescer, diz Galípolo

Presidente do BC garante que objetivo é controlar inflação e manter a economia estável, apesar dos efeitos no crédito e nos investimentos.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (17/8), em São Paulo, que os juros altos no Brasil não têm como objetivo impulsionar o crescimento econômico. Na visão dele, a função da taxa Selic é outra: reequilibrar a relação entre oferta e demanda, que hoje está "desnivelada" no país, com a demanda crescendo mais rápido do que a oferta. A declaração foi feita durante palestra promovida pelo Banco Santander.

O que Galípolo quis dizer com "desnivelamento"?

Quando uma economia cresce mais pela demanda do que pela oferta, significa que os consumidores, as empresas e o governo estão querendo comprar mais do que existe disponível para vender. Isso pode parecer um sinal positivo — afinal, quem não quer ver as vendas aquecidas? — mas, na prática, esse descompasso tem um efeito colateral conhecido: pressiona a inflação para cima.

É a chamada "demanda puxada": quanto mais gente competindo por bens e serviços limitados, mais os preços tendem a subir. Galípolo foi direto ao resumir essa lógica: o país cresce há alguns anos "puxado pela demanda", e isso "acaba se revelando em pressão inflacionária".

Por que os juros servem para frear, e não para acelerar

A taxa básica de juros da economia, a Selic, é a principal ferramenta que o Banco Central tem para esfriar a demanda quando ela esquenta demais. Ao elevar os juros, o crédito fica mais caro, financiamentos ficam mais pesados, e o consumo tende a desacelerar. Com menos pressão compradora, a inflação perde força.

Esse cenário é o que os economistas chamam de "patamar contracionista" — exatamente o termo usado por Galípolo. Em vez de um motor de crescimento, os juros funcionam aqui como um freio de mão, segurando o ritmo para evitar que os preços disparem.

Fatores internos pesam mais do que o cenário externo

Um ponto importante da fala de Galípolo é a avaliação de que os juros altos no Brasil têm causa mais doméstica do que global. Mesmo com a política monetária apertada nos Estados Unidos e na Europa, o presidente do BC atribui o nível da Selic brasileira a desequilíbrios internos — justamente o desnível entre oferta e demanda descrito acima.

Na prática, isso significa que a solução para os juros caírem não depende apenas do que acontece lá fora, mas principalmente do ajuste entre quanto o país produz e quanto consome. Se a oferta crescer mais do que a demanda, a inflação cede e abre espaço para o BC começar a cortar a Selic.

O que isso muda na prática?

Para quem está lendo em casa, o efeito mais imediato dessa política está no bolso. Com a Selic em patamar contracionista, o custo do crédito sobe: empréstimos pessoais, financiamentos imobiliários, cartão de crédito rotativo e cheque especial ficam mais caros. Por outro lado, a renda fixa — como CDBs, LCIs, LCAs e Tesouro Direto — paga mais, o que beneficia quem consegue poupar.

Também há um efeito indireto sobre investimentos em geral. Com juros altos por mais tempo, setores mais sensíveis ao crédito, como construção civil, imóveis e bens duráveis (carros, eletrodomésticos), tendem a sentir desaceleração. Já setores menos dependentes de financiamento, como serviços e commodities, costumam passar menos apertados.

Para o trabalhador, a leitura é dupla: o emprego formal pode esfriar um pouco se a economia perder tração, mas a inflação mais controlada preserva o poder de compra do salário ao longo do tempo. É um equilíbrio desconfortável, mas é o trade-off que o Banco Central assume ao manter os juros elevados.

Quando os juros podem começar a cair?

Galípolo não entrou em data ou prazo, mas a lógica da própria fala indica o caminho: enquanto a demanda continuar crescendo mais rápido que a oferta, o BC tende a manter os juros onde estão. Quando houver sinais de que esse descompasso está se fechando — por exemplo, com a produção industrial acelerando, novos investimentos entrando em vigor ou a inflação cedendo de forma consistente — abre-se espaço para iniciar o ciclo de cortes.

Até lá, o recado é claro: o papel dos juros, neste momento, não é aquecer a economia. É justamente o contrário — é frear o consumo para que os preços não fujam do controle e, no futuro, o crescimento volte de forma mais saudável e sustentada.

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Jornalista

Fernanda Costa

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