Durante sabatina realizada nesta quarta-feira, 19, o candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro, Douglas Ruas, descartou de forma direta a adoção do modelo de segurança pública usado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. A declaração aconteceu em sabatina de VEJA e trouxe um recorte importante: Ruas reconhece que o sistema penitenciário salvadorenho depende de mudanças estruturais que um governador sozinho não tem como fazer.
Por que o modelo Bukele não pode ser copiado no Rio?
A pergunta que ficou no ar é bastante objetiva: por que o Rio, mesmo querendo endurecer o combate ao crime, não conseguiria simplesmente importar a fórmula de El Salvador? A resposta de Ruas passa pela legislação. Para que o Estado mantenha presos em condições semelhantes às adotadas por Bukele — com prisões em massa e restrição severa de direitos — seria necessário reformular o sistema de Justiça como um todo, algo que foge da alçada de um governador.
Isso significa que qualquer proposta de segurança no Rio convive com um limite constitucional. O estado pode endurecer regras penitenciárias, mas não pode ignorar garantias previstas em lei nem ignorar o Ministério Público, o Poder Judiciário e a Defensoria. Por isso mesmo, candidatos fluminenses costumam adaptar o discurso de "enfrentamento" para o que cabe dentro do escopo estadual.
A proposta alternativa de Ruas para o Rio
Em vez do pacote salvadorenho, Ruas apresentou uma pauta dividida em quatro frentes principais: retomada de territórios ocupados por facções, construção de novos presídios, trabalho obrigatório para detentos e troca dos indicadores usados para avaliar a polícia.
O ponto de partida é o território. Para o candidato, o crime organizado funciona como uma espécie de "Estado paralelo" dentro de comunidades do Rio, e a maneira de romper essa lógica seria entrar e permanecer. Ele defende policiamento ostensivo somado a ações coordenadas com a Polícia Federal, as Forças Armadas e o governo federal. Em outras palavras, a ideia não é fazer operações pontuais, mas ocupar de forma duradoura.
Outra frente é o sistema prisional. Hoje, o estado tem cerca de 47 mil presos para 26 mil vagas — um déficit próximo de 21 mil vagas. Ruas promete construir presídios para reduzir esse buraco e, ao mesmo tempo, tornar obrigatório o trabalho dos detentos. A lógica é que o preso contribua financeiramente para suas próprias despesas dentro do sistema. Ele usou Santa Catarina como exemplo de política já em vigor no Brasil.
O que isso muda na prática?
Para o eleitor fluminense, o resumo prático é o seguinte: se Ruas for eleito e conseguir viabilizar a proposta, o dia a dia em áreas dominadas por facções pode mudar — na teoria — pela presença permanente do Estado em vez de operações que entram e saem. O impacto direto seria sentido em comunidades onde a circulação de moradores já é controlada por organizações criminosas, com comércios, transporte e até horários vigiados.
No sistema penitenciário, a proposta de trabalho obrigatório não é novidade em nível mundial, mas tem implicações. O detento precisaria ter acesso a algum tipo de atividade remunerada, o que exige estrutura, parcerias com empresas e regulamentação específica. Sem isso, a promessa de "preso trabalhando para arcar com suas despesas" tende a virar apenas discurso de campanha.
Há também a proposta de mudar o indicador principal de avaliação das forças de segurança. Hoje, o que mais pesa é a letalidade violenta — número de homicídios, tiroteios e mortes em confronto. Ruas quer trocar isso por um indicador de "retomada de territórios", que segundo ele atacaria a origem de crimes específicos como roubo de carga e de veículos. A mudança é polêmica porque a letalidade policial no Rio já é alvo constante de críticas de órgãos de controle e de organizações de direitos humanos, e retirar esse foco pode reduzir a visibilidade de abusos.
Por fim, o candidato classificou o cenário do Rio como um "estado de guerra", citando o volume de fuzis apreendidos no estado. A declaração reforça a tentativa de emplacar uma narrativa de urgência, mas também abre espaço para críticas sobre o uso de forças armadas em operações urbanas e sobre os limites entre segurança pública e proteção de direitos.
Para quem isso importa agora
A discussão sobre segurança no Rio não é apenas eleitoral — ela afeta quem mora na capital, na Região Metropolitana e no interior. Quem enfrenta rotineiramente fechamento de estradas por bloqueios, cobranças de "taxa" de facções ou simplesmente convive com a sensação de insegurança quer entender qual caminho o próximo governador vai tomar. E quem mora em áreas já "pacificadas" quer garantir que conquistas recentes não retrocedam.
A sabatina de Ruas deixou claro que a vitrine do "modelo Bukele" vai continuar aparecendo no debate, mas que candidatos realistas vão precisar mostrar o que cabe dentro da lei brasileira. Vale acompanhar os planos de governo dos demais candidatos para comparar propostas de presídios, indicadores policiais e estratégias de retomada territorial — três pontos que, mais do que frases de efeito, vão definir como o Rio vai tentar enfrentar o crime organizado nos próximos quatro anos.
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