A psicanalista Maria Homem afirmou que Christopher Nolan "reescreveu um herói contemporâneo por excelência" ao adaptar A Odisseia para o cinema. A declaração foi feita em entrevista ao Estadão durante o Rio Innovation Week, nesta quarta-feira, 5, e traz uma leitura que conecta o poema de Homero — escrito por volta do século 7 a.C. — ao momento atual de questionamento sobre guerras e formas de resolver conflitos.
O herói que recusa a guerra como única saída
O ponto central da análise está na forma como Odisseu é retratado no filme. Para Maria Homem, o protagonista se torna um herói contemporâneo não por causa de suas batalhas ou feitos gloriosos, mas justamente por questionar a lógica da guerra. "A guerra não faz sentido; é destruição pura, ela é injusta, ela dá muito trabalho, ela é um custo altíssimo. Ela é o paradigma da força e não o paradigma da palavra", resumiu a psicanalista.
Em outras palavras, Nolan teria deslocado o foco do herói guerreiro clássico para um personagem que representa a possibilidade de resolver disputas por outros meios — pela argumentação, pelo pensamento estratégico, pela palavra. É uma mudança sutil, mas significativa: em vez de celebrar a força bruta, o filme coloca o espectador diante da pergunta "vale a pena guerrear por isso?".
A tradição grega já fazia essa pergunta
Maria lembrou que os gregos da Antiguidade não tratavam a guerra como algo inquestionável. Eurípedes, em As Troianas, já expunha o lado devastador dos conflitos armados sob a perspectiva das mulheres que ficaram para trás. Séculos antes, no século 5 a.C., Ésquilo escreveu Orestéia, peça na qual o questionamento sobre o heroísmo homérico aparece de forma explícita.
A psicanalista destaca que, entre o século 7 a.C. — quando Homero teria composto seus poemas — e o século 5 a.C., já existia um debate cultural sobre se o valor da virilidade e do heroísmo baseado na guerra era realmente válido. Não era consenso nem na Antiguidade que guerrear era o caminho mais nobre.
Três mil anos depois, a mesma discussão
Para Maria, o que Nolan faz é atualizar esse diálogo milenar. "Três mil anos depois, no estágio em que estamos, dizemos: 'Não, eu posso ter a culpa porque eu posso achar uma outra maneira mental, lógica, filosófica de resolver os conflitos e as disputas por recursos, por território, por espaço, por reconhecimento'".
A fala da psicanalista dialoga diretamente com o cenário geopolítico atual, marcado por conflitos em diferentes partes do mundo e por debates sobre se a força militar é a única forma — ou a mais eficaz — de resolver disputas entre nações. Ao apresentar Odisseu como alguém que questiona a guerra em vez de glorificá-la, o filme abre espaço para refletir sobre como sociedades modernas lidam com crises e rupturas.
O que isso muda na prática para quem assiste?
Para o espectador comum, a análise sugere que A Odisseia não é apenas um blockbuster de aventura com efeitos visuais — embora também seja isso. É um filme que convida o público a repensar o que significa ser "herói" hoje. A pergunta que Odisseu faz sobre a guerra ecoa em discussões cotidianas sobre violência, poder e negociação.
Do ponto de vista do cinema, a leitura ajuda a entender parte do impacto comercial. Em três semanas de exibição, A Odisseia já havia arrecadado cerca de US$ 911 milhões em bilheteria global — o equivalente a aproximadamente R$ 4,6 bilhões na cotação atual. O dado mostra que o público respondeu tanto à grandiosidade visual de Nolan quanto, possivelmente, à atualidade do tema.
Por que essa leitura interessa além do cinema
A associação feita por Maria entre o protagonista de Nolan e a resolução contemporânea de conflitos não é apenas uma curiosidade acadêmica. Ela mostra como obras culturais podem funcionar como espelhos do momento em que são produzidas — e consumidas. Ler A Odisseia em 2026, seja no cinema, seja no poema original, é se deparar com perguntas que continuam sem resposta fácil.
Para quem se interessa por psicanálise, filosofia ou história da cultura, a entrevista é um ponto de partida para entender como narrativas antigas seguem moldando o imaginário coletivo. Para quem só quer decidir se vale a pena assistir ao filme, fica a pista: A Odisseia de Nolan não é só entretenimento — é também uma provocação.
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