O documentário Honestino, do diretor Aurélio Michiles, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 13, com o ator Bruno Gagliasso no papel central: ele interpreta o ativista Honestino Guimarães nos trechos encenados da produção. O filme resgata a trajetória de um militante político sequestrado e assassinado por agentes da Ditadura Militar em 1973, antes de completar 30 anos — uma história que, segundo o próprio Gagliasso, ainda é desconhecida de boa parte da população.
Quem foi Honestino Guimarães
Nascido em 1967 (formado em física pela Universidade de Brasília), Honestino se tornou uma das figuras mais marcantes da resistência à Ditadura. Foi presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) e dirigente da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), organização de esquerda que atuou na luta armada contra o regime. Em 1973, foi preso em São Conrado, no Rio de Janeiro, após cair em uma emboscada. Desapareceu nas dependências do DOI-CODI sem que o corpo fosse entregue à família. O episódio é considerado um dos símbolos mais sombrios da repressão durante o período militar.
Quase meio século depois, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente sua morte como crime político. Em Brasília, a Ponte Honestino Guimarães — sobre o Lago Sul — foi nomeada em sua homenagem. A peça documental de Michiles pretende dar a essa memória um alcance ainda maior, resgatando o lado humano do ativista e não apenas sua faceta política.
O filme e a escolha por Bruno Gagliasso
Aurélio Michiles conheceu pessoalmente Honestino em uma reunião clandestina, décadas antes do assassinato. Para o documentário, decidiu incluir cenas dramatizadas que mostram o ativista em ação, e escalou Bruno Gagliasso para interpretá-lo. O ator não escondeu o peso da responsabilidade e aproveitou a oportunidade para revisitar um passado profissional incômodo.
"Eu interpretei um torturador em Marighella. Essa era a oportunidade de estar do lado certo da história, a convite de um diretor que é um dos maiores cineastas do Brasil", afirmou Gagliasso em entrevista à VEJA. Para ele, a função do cinema vai além do entretenimento: é também um instrumento político. "É meu jeito de fazer política."
O ator reconhece que parte do público só vai conhecer a história de Honestino por causa do filme — e diz sentir orgulho disso. Antes do convite, ele mesmo admitia desconhecer a trajetória do ativista. A frase resume o objetivo da produção: preencher uma lacuna na memória coletiva brasileira.
Por que a Ditadura voltou ao cinema
Honestino entra no circuito ao lado de outros títulos que revisitam o período: Marighella, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. A coincidência rendeu críticas de parte do público, que reclama de "saturação" da temática. Gagliasso respondeu de forma direta: "Acho isso pequeno e bobo. Quem fala algo do tipo não conhece o cinema brasileiro."
Para o ator, o argumento do excesso é equivocado. Ele defende o oposto: o país precisa de mais filmes sobre o período. "Falar sobre o tema é não só reconhecer nossa história, como também fazer um pouco de justiça. Não existe nada pior do que ter a própria história apagada, como a do Honestino foi para tantas pessoas." O diretor Michiles endossa a visão e acrescenta um elemento de urgência: a produção nasceu como resposta ao que ele chama de "elogios à Ditadura, aos torturadores e à perda das conquistas trabalhistas e sociais" que ganharam espaço no debate público nos últimos anos.
O que isso muda na prática?
Para quem vai ao cinema, Honestino funciona como uma porta de entrada para um capítulo da história que não aparece nos livros didáticos com a devida profundidade. O documentário não se limita a reconstituir o assassinato: reconstrói a pessoa, com direito a discussões sobre música, literatura e política que Michiles teve com o amigo antes do desaparecimento.
Para quem debate os rumos da memória nacional, o filme reforça um argumento que ganhou tração nos últimos anos: enquanto houver episódios da Ditadura sem reconhecimento público, o tema continua atual. A produção chega num momento em que filmes sobre o período deixaram de ser exceção e se tornaram um gênero com identidade própria no audiovisual brasileiro — impulsionado, em parte, pela repercussão internacional de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, premiado no Festival de Veneza em 2024 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
O documentário também oferece um recorte raro ao mostrar a perspectiva de quem conviveu com Honestino. Ao ouvir de Michiles que ele não imagina o ativista como "militante ou herói, mas como o amigo que se preocupava comigo", o espectador recebe um lembrete importante: por trás dos nomes em livros e pontes há pessoas com vida cotidiana interrompida pela violência de Estado.
Mais do que escolher um filme para o fim de semana, quem for ao cinema nesta quinta-feira tem a chance de conhecer — ou reconhecer — uma história que o país tentou esquecer. O recado de Gagliasso é direto: esse esquecimento precisa acabar, e o cinema é uma das vias possíveis para revertê-lo.
Continue acompanhando o Portal Brasil News
- Instagram: @top_ofertas_brasil_oficial
- Site: Ver mais notícias



