O pesquisador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, lança nestas semanas uma obra que promete virar leitura obrigatória para quem quer entender o jogo eleitoral de 2026. Intitulado "O Brasil da maioria", o livro parte de uma constatação simples e poderosa: mais de 100 milhões de brasileiros pertencem à classe C, e quem souber falar a língua dessa fatia tende a sair na frente, principalmente nos estados. O detalhe que incomoda parte do debate é que, na avaliação do próprio Meirelles, o presidente Lula já não consegue mais se conectar com o eleitorado que ele mesmo ajudou a formar.
O tamanho real da classe C
A classe C corresponde à maioria absoluta do eleitorado brasileiro. Não é a base da pirâmide, que depende diretamente de programas sociais do Estado, nem a elite, que tem capital próprio e quase não usa serviço público. É um contingente enorme que vive no meio, pagando impostos, recorrendo ao SUS, matriculando filhos em escola pública e tentando tirar do papel o negócio próprio.
Meirelles resume essa contradição em uma frase que provavelmente soa familiar a milhões de famílias pelo país: "Na hora que essa fatia da população precisa que o Samu chegue no momento certo, o Estado falta. Quando ela vai abrir seu pequeno negócio, sobra o Estado com a burocracia." É o retrato fiel do cotidiano de quem trabalha, paga conta, mas sente o Estado mais como obstáculo do que como aliado.
Por que Lula perdeu a sintonia
Entre 2003 e 2010, nos dois primeiros mandatos de Lula, a classe C votou em peso no petista por enxergar uma troca clara: acesso à universidade para os filhos, conquista da casa própria e crescimento do pequeno negócio impulsionado pelo aumento real do salário mínimo. O pacto deu certo e está por trás da maior ascensão social vivida pelo país nas últimas décadas.
O efeito colateral, segundo o pesquisador, foi a formação de uma geração que não tem memória da pobreza vivida pelos pais e que não se enquadra nos critérios dos programas sociais atuais. Esses jovens se identificam com ideias liberais na economia, valorizam o empreendedorismo e encaram o Estado e sua burocracia como barreiras, em vez de suportes. Daí a frase de Meirelles que tem ganhado repercussão: "Lula não aprendeu a lidar com a classe C que ele mesmo criou."
Onde está a chave do voto em 2026
Tem ainda um dado que costuma passar despercebido nas análises eleitorais, mas que Meirelles considera central: mulheres lideram 53% dos lares da classe C. São elas que pesquisam se a creche tem vaga, que enfrentam a fila da matrícula na escola pública e que conduzem o marido até a UPA quando a situação aperta. Em outras palavras, são elas que vivem o serviço público no corpo e no relógio.
Esse perfil ajuda a explicar por que Lula aparece à frente de nomes como Flávio Bolsonaro justamente entre as mulheres desse segmento — e por que candidatos que ignoram essa realidade tendem a perder terreno nas próximas disputas. Política para essa eleitora não é debate ideológico abstrato: é a creche que abriu ou não abriu, o médico que atendeu ou não atendeu, a matrícula que saiu ou não saiu.
O que isso muda na prática?
Para o eleitor comum, o recado é direto: promessas vagas de "povo" ou de "Brasil que volta a crescer" já não convencem quem precisa resolver problemas concretos todo mês. A classe C quer respostas práticas — Samu funcionando, vaga garantida em creche, abertura de empresa sem labirinto burocrático.
Para quem acompanha política de perto, vale prestar atenção em candidatos a governador, deputado estadual e federal que apostem nesse diálogo do dia a dia. Na leitura de Meirelles, é aí que a eleição de 2026 vai se decidir — muito mais do que nos grandes palanques nacionais.
E para quem quer entender o Brasil que de fato vota, vale acompanhar o trabalho do Instituto Locomotiva e mergulhar na leitura de "O Brasil da maioria". Mais do que tese acadêmica, o livro funciona como um mapa atualizado do eleitorado — e um lembrete útil de que, em ano de eleição, quem escuta a classe C costuma colher votos no fim.
Continue acompanhando o Portal Brasil News
- Instagram: @top_ofertas_brasil_oficial
- Site: Ver mais notícias




