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LGPD completa 8 anos: o que mudou na proteção dos seus dados

LGPD completa 8 anos: o que mudou na proteção dos seus dados

Multas milionárias, novos direitos e mudanças no cotidiano: conheça o impacto real da lei nas empresas e na sua vida.

A Lei Geral de Proteção de Dados completa oito anos nesta sexta-feira (14) e, apesar de ter sido sancionada em agosto de 2018, a maior parte das suas regras só começou a valer de verdade em setembro de 2020, com as sanções administrativas passando a ser aplicáveis a partir de agosto de 2021. Ou seja: a LGPD já é uma realidade no cotidiano de empresas e consumidores brasileiros, mesmo que muita gente ainda não perceba o impacto direto na própria vida.

O que a LGPD faz, na prática?

A Lei nº 13.709/2018 foi criada para regulamentar o tratamento de dados pessoais — inclusive em meios digitais — por pessoas físicas e organizações públicas ou privadas. O objetivo é proteger direitos fundamentais como liberdade, privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade.

Traduzindo: toda vez que você preenche um cadastro em uma loja, baixa um aplicativo, aceita cookies em um site ou recebe uma oferta personalizada na internet, existe uma engrenagem jurídica por trás controlando o que pode ou não ser feito com aquelas informações. Seu nome, CPF, endereço, hábitos de consumo, localização, dados de saúde — tudo isso passou a ter regras claras de uso, armazenamento e compartilhamento.

E o mais importante: você ganhou direitos reais sobre esses dados. Pode pedir para uma empresa saber o que ela tem sobre você, exigir correção, pedir exclusão e até revogar um consentimento que tenha dado no passado.

Oito anos depois, as empresas realmente se adaptaram?

A resposta curta é: depende. Carlos Lima, sócio do Failla Lima Riva Advogados, avalia que o período foi de amadurecimento, mas de forma bastante desigual entre as organizações.

Nos primeiros anos após a entrada em vigor da lei, muitas empresas enxergaram a LGPD como um projeto essencialmente formal e jurídico. O foco foi em medidas como: elaborar políticas de privacidade, indicar um encarregado de dados (o famoso DPO), revisar contratos e montar um inventário de quais informações a empresa coletava.

Foi um começo importante, mas ainda superficial. Com o tempo, as organizações mais maduras começaram a integrar a proteção de dados em decisões que vão muito além do jurídico. Hoje, em empresas que levam o assunto a sério, a LGPD aparece em áreas como tecnologia, segurança da informação, contratação de fornecedores, desenvolvimento de novos produtos e gestão de riscos corporativos.

O que isso muda na prática para você?

A mudança mais visível está no nível de controle que o consumidor passou a ter. Antes da LGPD, era comum empresas compartilharem dados com terceiros sem qualquer aviso claro. Hoje, existe a obrigação legal de pedir consentimento explícito, informar a finalidade do uso e permitir que o titular revogue essa autorização.

Isso aparece, por exemplo, nos avisos de cookies que aparecem em praticamente todo site que você visita. Pode parecer burocracia, mas é exigência da legislação. O mesmo vale para aquelas mensagens de "atualizamos nossa política de privacidade" que chegam por e-mail — as empresas são obrigadas a comunicar mudanças no tratamento de dados.

Na prática, o leitor que nunca precisou usar os direitos previstos na lei tem à disposição instrumentos como: solicitar acesso aos dados que uma empresa tem sobre si, pedir a exclusão completa dessas informações, corrigir dados incorretos e revogar consentimentos. Basta entrar em contato com o encarregado de dados da organização (toda empresa é obrigada a ter um e divulgar o canal de contato).

O próximo desafio: mostrar que a proteção funciona

Para Carlos Lima, o grande divisor de águas daqui para frente está em sair do papel. "Já não basta ter um programa de privacidade; é preciso demonstrar que ele funciona", afirma. Isso significa que a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e o mercado em geral passaram a cobrar não só a existência de políticas, mas evidências concretas de que os dados estão sendo protegidos de fato — com testes, auditorias e monitoramento contínuo.

Para o consumidor, essa evolução tende a se traduzir em menos vazamentos de dados, menos golpes usando informações pessoais obtidas de forma irregular e mais transparência sobre quem está usando seus dados e para quê. Mas o caminho ainda é longo, principalmente entre empresas menores, que muitas vezes tratam o tema como custo e não como prioridade.

LGPD em números e contexto

A LGPD se inspirou em legislações semelhantes que já existiam em outros países, como a GDPR europeia. O modelo brasileiro, porém, tem particularidades — como a criação da ANPD como órgão regulador específico e a possibilidade de aplicar sanções administrativas que vão de advertência a multas de até 2% do faturamento da empresa, limitada a R$ 50 milhões por infração.

Desde que as sanções passaram a ser aplicáveis, a ANPD já multou empresas por descumprimento, o que tem servido como sinal concreto de que a lei "não é só papel". Para quem lida com dados de clientes no dia a dia — seja como profissional de marketing, desenvolvedor, advogado ou gestor — entender a LGPD deixou de ser diferencial e virou obrigação.

Por que ainda vale a pena prestar atenção

Mesmo que você não trabalhe diretamente com dados, a LGPD tem impacto direto na sua rotina digital. Cada aplicativo que você instala, cada cadastro que preenche, cada compra online que faz passa por algum tipo de tratamento regulado por essa lei. Saber quais são os seus direitos é o primeiro passo para exercê-los.

Se uma empresa usa seus dados de forma indevida, compartilha informações sem autorização ou se recusa a excluir seus dados quando solicitado, você pode fazer uma denúncia à ANPD. O processo é gratuito e pode ser feito pelo site oficial da autoridade. Antes da LGPD, esse tipo de reclamação simplesmente não tinha canal formal no Brasil.

Completar oito anos é, portanto, mais do que uma data simbólica: é a confirmação de que a proteção de dados pessoais se consolidou como um pilar da vida digital no país — ainda que o trabalho de conscientização e fiscalização esteja longe de terminar.

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Jornalista

Ana Martins

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