A escolha do deputado federal Alfredo Gaspar como candidato a vice na chapa de Flávio Bolsonaro não foi um movimento neutro. Mais do que completar uma chapa, ela revela qual é a aposta central da campanha para 2026: usar o combate à corrupção e ao crime organizado como motor de mobilização eleitoral, mesmo que isso signifique abrir mão de um nome capaz de falar diretamente ao mercado financeiro.
Por que Gaspar combina com a estratégia de Flávio
Alfredo Gaspar ficou conhecido nacionalmente por dois motivos: a atuação como promotor de Justiça à frente de investigações de grande repercussão e a relatoria da CPMI do INSS, da qual participou em 2025. Foi nesse trabalho que ele estimou que descontos associativos e empréstimos fraudulentos tiraram mais de R$ 7 bilhões do bolso de aposentados entre 2015 e 2025, pedindo 216 indiciamentos.
O relatório acabou rejeitado, mas o episódio deu a Gaspar o tipo de projeção que um candidato a vice precisa: a de alguém disposto a encarar esquemas bilionários de dentro do Congresso. Para Flávio, esse é um ativo eleitoral mais valioso do que a experiência em economia — tema que ele optou por delegar a outras peças da campanha.
O que essa escolha deixa de fora
A vaga de vice é uma das ferramentas mais estratégicas de uma chapa presidencial. Tradicionalmente, serve para equilibrar o perfil do candidato principal, atrair aliados regionais ou costurar apoios no mercado. Um nome ligado ao agronegócio, por exemplo, poderia reforçar a base no Centro-Oeste. Um ex-ministro da Fazenda daria安全感 a investidores.
Gaspar não ocupa nenhum desses espaços. Ele nunca comandou uma área econômica, nunca negociou reformas estruturais no Congresso e não tem histórico de interlocução com o sistema financeiro. Quem busca esse tipo de referência na chapa de Flávio vai encontrá-la em outro lugar: a economista Daniella Marques, responsável por formular a promessa de um ajuste fiscal de 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões.
O discurso da economia paralela
Mesmo sem formação em economia, Gaspar encontrou uma forma de se associar ao tema: o combate à ilegalidade. Ele já citou publicamente que pirataria, contrabando, sonegação e lavagem de dinheiro tiram cerca de R$ 485 bilhões por ano da economia formal. O número virou uma das bandeiras da sua campanha.
Vale um detalhe: essa cifra soma impostos não arrecadados, faturamento do mercado ilegal e outros prejuízos indiretos. Não é dinheiro que entraria no caixa do governo amanhã, mesmo que todo o mercado ilegal fosse eliminado. Ainda assim, o discurso cumpre uma função política clara: apresenta o combate à corrupção como uma agenda econômica popular, capaz de falar tanto com o eleitor quanto com setores produtivos incomodados com a concorrência desleal.
Na prática, o que muda para o eleitor?
Para quem acompanha a corrida eleitoral, a decisão de Flávio tem uma leitura direta: a campanha acredita que pautas como investigar o INSS, expor esquemas de fraude e punir o crime organizado mobilizam mais votos do que a escolha de um vice capaz de gerar confiança imediata entre investidores e agentes do mercado.
Isso não significa que a pauta econômica ficou de lado — ela foi reorganizada. Daniella Marques segue como peça-chave da proposta fiscal, e Gaspar entra como reforço de discurso, não como operador de negociações no Congresso. A diferença é importante: aprovar uma reforma tributária, mexer em regras previdenciárias ou destravar gastos exige articulação que vai além da popularidade de um nome.
O risco do cálculo eleitoral
Toda escolha estratégica tem um custo. Ao apostar em Gaspar, Flávio ganha um palanque temático — a CPMI do INSS, o combate à sonegação, a fachada de rigor investigativo —, mas deixa em aberto uma peça essencial de qualquer governo eleito: quem vai, de fato, negociar o ajuste de R$ 190 bilhões com o Congresso e com o próprio Palácio do Planalto?
A resposta a essa pergunta dirá muito do tamanho real da ambição da chapa. Um vice que serve apenas para ecoar bandeiras eleitorais é diferente de um vice que carrega a tarefa de transformar promessas em maioria parlamentar. Até agora, Gaspar parece ocupar o primeiro papel. Resta saber se a campanha enxerga isso como suficiente — ou se, mais adiante, uma nova peça entrará no jogo para cobrir o espaço que a vice deixou vazio.
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