A promessa do prĂ©-candidato Ronaldo Caiado de estabilizar a dĂvida pĂşblica brasileira em dois ou trĂŞs anos esbarra em uma conta pesada: um ajuste fiscal de atĂ© R$ 264 bilhões. É o que apontam os cálculos do Radar EconĂ´mico com base nas projeções do Tesouro Nacional.
Para colocar em perspectiva, esse valor corresponde a mais de quatro vezes o orçamento anual do programa Bolsa FamĂlia. Ou seja, nĂŁo se trata de um ajuste simples — Ă© uma das manobras fiscais mais ambiciosas propostas recentemente por um postulante ao Palácio do Planalto.
De onde viria o dinheiro?
Até agora, a equipe econômica da campanha, coordenada pelo economista Roberto Brant, apresentou uma única fonte concreta de receita: a revisão dos chamados gastos tributários — que são as renúncias de receita concedidas pelo governo por meio de isenções, deduções e regimes especiais.
O problema Ă© que ninguĂ©m disse ainda quais setores perderiam os benefĂcios. A equipe afirma que o plano preservará os pisos de saĂşde e educação, alĂ©m da vinculação dos benefĂcios previdenciários e sociais ao salário mĂnimo. TambĂ©m promete nĂŁo criar despesas novas, cortar gastos fora do arcabouço fiscal e restringir garantias da UniĂŁo. Tudo isso ajuda, mas nĂŁo resolve o lado da receita.
Na prática, sem cortar despesas obrigatĂłrias — que crescem automaticamente —, a fatura recai inteira sobre a revisĂŁo das isenções. E aĂ mora o impasse polĂtico.
O tamanho do buraco em nĂşmeros
Como Caiado sĂł assumiria a PresidĂŞncia em 2027, a estabilização prometida precisaria acontecer atĂ© o fim de 2028 ou de 2029. Para travar o crescimento da dĂvida já em 2028, o paĂs precisaria gerar um superávit primário de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Sem novas receitas, o cenário oficial projeta apenas 0,23%.
Essa diferença — 1,67 ponto percentual do PIB — equivale a aproximadamente R$ 264 bilhões no cenário mais otimista. Estendendo o prazo para 2029, o ajuste necessário cairia para R$ 226 bilhões, mas o fisco ainda exigiria superávit de 1,5% do PIB, contra 0,17% projetado.
Mesmo contabilizando receitas extras que o próprio governo ainda não detalhou, o rombo remanescente ficaria em R$ 203 bilhões no primeiro cenário ou R$ 97 bilhões no segundo. Em qualquer dos casos, é um valor que não se resolve com medidas administrativas ou cortes de gastos discricionários.
Os setores na mira — e o dilema polĂtico
Os gastos tributários federais previstos para 2026 somam R$ 612,8 bilhões. Eles estĂŁo espalhados por benefĂcios populares como o Simples Nacional (que atende milhões de micro e pequenas empresas), a Zona Franca de Manaus (polo industrial da AmazĂ´nia), deduções do Imposto de Renda e incentivos ao agronegĂłcio.
SĂł a agricultura e a agroindĂşstria respondem por R$ 79,5 bilhões em renĂşncias. É justamente nesse setor que está uma das bases eleitorais mais sĂłlidas de Caiado, governador de Goiás e histĂłrico defensor do agronegĂłcio. Qualquer mexida nessas isenções, portanto, tende a gerar atrito com parte do prĂłprio eleitorado que ajudou a projetar o polĂtico.
Outros cortes possĂveis — como nas deduções de gastos com saĂşde e educação no Imposto de Renda de pessoas fĂsicas, que beneficiam a classe mĂ©dia — tambĂ©m costumam encontrar resistĂŞncia imediata. Sem transparĂŞncia sobre o que será cortado, a promessa de estabilização fica suspensa no ar.
O que ainda falta ser dito?
A equipe de campanha nĂŁo divulgou trĂŞs informações básicas: qual será a meta de resultado primário em cada ano, quais incentivos tributários pretende revisar e quanto espera economizar com uma reforma administrativa. Sem esses nĂşmeros, a proposta de estabilizar a dĂvida se aproxima mais de uma diretriz polĂtica do que de uma meta fiscal verificável — algo que investidores e ĂłrgĂŁos de controle possam cobrar com critĂ©rios claros.
Para o leitor comum, o recado prático é o seguinte: se essa promessa for levada a cabo, alguma coisa vai mudar no bolso. Pode ser o preço de produtos que hoje se beneficiam de isenção, a declaração de Imposto de Renda ou o acesso a programas que dependem de receita pública. A questão-chave é qual caminho o governo escolherá — e se a sociedade terá clareza sobre as escolhas antes da eleição.
Por enquanto, o que existe é um número grande, uma intenção declarada e muitos detalhes por vir.
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