Estreia nesta quinta-feira, 13, nos cinemas brasileiros, Colegas e o Herdeiro, a sequência de Colegas (2012), filme que marcou a história do cinema nacional ao reunir um elenco majoritariamente formado por atores com síndrome de Down. Treze anos depois, o diretor Marcelo Galvão não repete a fórmula: amplia o elenco para mais de 70 pessoas neurodivergentes — incluindo atores no espectro autista e com síndrome de Williams — e troca o tom mais autoral por uma aventura road movie com perseguições, humor e fotografia que evoca Wes Anderson.
Por que esse filme importa agora?
Porque Colegas, o original, foi mais do que uma comédia premiada com o Kikito de Ouro em Gramado em 2012. O longa rodou festivais do mundo todo — de Moscou a Trieste — e virou referência de cinema inclusivo no Brasil. Quando uma sequência chega após mais de uma década, a expectativa é dupla: para o público em geral, que quer entretenimento; e para famílias de pessoas com deficiência intelectual, que esperam representação honesta e sem condescendência.
A motivação do diretor, segundo entrevista ao Estadão, veio justamente das conversas em turnês de divulgação do primeiro filme. Galvão conta que ouvia repetidamente de mães de pessoas autistas: "adorei teu filme, mas eu queria que você fizesse um filme com autista". O problema é que ele não sabia por onde começar. "Então eu estudei bastante, vi filmes, criei várias amizades com autistas", disse. O resultado aparece na tela: um roteiro que não trata a neurodivergência como tema dramático a ser superado, mas como parte natural da jornada dos personagens.
O que muda em "Colegas e o Herdeiro"?
Praticamente tudo. A premissa agora é mais movimentada: o grupo de colegas foge clandestinamente do instituto onde vive, embarca em um avião de carga e atravessa fronteiras rumo a Punta del Este, no Uruguai. O objetivo é reencontrar o amigo Stallone, que está no país brigando pela herança de um hotel e, sem querer, esbarra com uma quadrilha de contrabandistas de pedras preciosas.
Se o primeiro Colegas tinha um visual mais contido, quase de cinema de festival, a sequência aposta em câmera parada, enquadramentos angulares e simetria que remete abertamente ao estilo de Wes Anderson. Galvão assume a influência sem disfarçar: "eu estudei bastante os filmes dele, tentando fazer uma coisa que fosse ao mesmo tempo divertida e também tivesse um pouco de bom gosto", explicou. A escolha ajudou o filme a parecer maior do que o orçamento permitia — ironia considerável, já que o longa original foi um sucesso de bilheteria.
Outra mudança está no elenco. Sai o grupo compacto do original e entra um time膨胀ido de mais de 70 pessoas em cena. Isso significa que o filme abre espaço para atores com diferentes diagnósticos — Down, espectro autista, síndrome de Williams — contracenando juntos. Para quem acompanha o debate sobre representatividade no audiovisual brasileiro, é um movimento relevante: amplia o leque de rostos neurodivergentes em produções nacionais e mostra que deficiência intelectual não é sinônimo de um único tipo de personagem.
O que isso muda na prática para o espectador?
Quem for ao cinema encontra um filme com cara de aventura clássica, mas com um elenco que raramente ocupa esse tipo de narrativa no cinema comercial brasileiro. Isso tem efeito duplo: para o público em geral, é entretenimento genuíno — com humor, perseguição e um plot envolvendo herança e contrabando — sem que a condição dos atores funcione como barreira ou como "lição". Para famílias de pessoas neurodivergentes, é a chance de ver seus filhos, irmãos ou amigos como protagonistas de uma história maior, e não coadjuvantes de uma trama sobre superação.
Vale destacar também o retorno de Ariel Goldenberg ao papel de Stallone, 13 anos depois da primeira vez. Em entrevista, ele resumiu o impacto pessoal com uma palavra: "resistência". "Eu já estava com saudade de interpretar o Stallone mais uma vez. Foi uma experiência incrível", disse ao Estadão. A fala importa porque vem de alguém que viveu na pele o que é construir carreira como ator com síndrome de Down no Brasil — um mercado que oferece pouquíssimas oportunidades desse tipo.
Para quem está em dúvida se vale o ingresso, alguns pontos práticos ajudam a decidir: o filme tem classificação indicativa livre (verifique na sua cidade), é indicado para quem gostou de comédias de aventura como Entrada pela Saída ou Meu Passado Me Condena, e funciona bem em sessão com a família. Quem viu o primeiro Colegas na adolescência e hoje tem mais de 25 anos encontra aqui um reencontro curioso — mesmo o tom é outro.
Como assistir e por que acompanhar
Colegas e o Herdeiro estreia nesta quinta-feira, 13, nos cinemas de todo o Brasil. Para quem quiser ir além, vale procurar o longa original nas plataformas de streaming — costuma aparecer em catálogos rotativos — e assistir ao especial Colegas — Onde Tudo Começou, registro dos bastidores do primeiro filme que ajuda a entender de onde veio a química do elenco.
Mais do que uma continuação, o lançamento é um termômetro: mostra que existe público para filmes com elenco majoritariamente neurodivergente, e que é possível fazer aventura comercial sem abrir mão dessa representatividade. Se a bilheteria responder bem, abre caminho para que outros produtores apostem em projetos parecidos — e isso, no fim das contas, muda o mapa do cinema brasileiro.
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