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Transição travada: linhas chinesas ainda levam 42% de carvão junto com renováveis

Transição travada: linhas chinesas ainda levam 42% de carvão junto com renováveis

Maior emissor mundial ainda depende de térmicas para garantir estabilidade, mesmo com recordes de capacidade solar e eólica.

A China instala mais painéis solares e turbinas eólicas em grande escala do que todos os outros países somados, mas esbarrou em um gargalo que limita o aproveitamento real dessa expansão: a infraestrutura de transmissão foi desenhada para operar junto com usinas a carvão. Um relatório do Global Energy Monitor (GEM), divulgado nesta semana, mostra que 42% da energia que circula pelas linhas de corrente contínua de ultra-alta tensão (UHVDC) do país ainda vem do carvão, enquanto eólica e solar respondem por apenas 20% — taxa que praticamente não se move desde 2021.

Como funcionam as megabases chinesas

A lógica da estratégia chinesa é simples no papel: gerar energia limpa em regiões desertas e pouco povoadas do norte e noroeste (onde o sol bate mais forte e o vento é constante) e enviar a eletricidade por linhas de transmissão de altíssima capacidade para alimentar cidades e fábricas no leste do país, onde está a maior parte da população e da indústria.

O problema é que essas mesmas linhas UHVDC não carregam apenas energia verde. Elas foram projetadas para operar em conjunto com termelétricas a carvão, que funcionam como uma espécie de "amortecedor" técnico — entram em ação para estabilizar a rede quando a geração eólica e solar oscila. Na prática, isso transforma boa parte da infraestrutura limpa em uma via compartilhada com a energia mais poluente do planeta.

Os números que preocupam

O relatório do GEM traz alguns dados que destoam do discurso oficial de transição energética da China. Até 2030, cerca de 315 gigawatts (GW) de capacidade das megabases vão depender de conexões com outras regiões, o que exigiria 27 novas linhas UHVDC. O plano quinquenal chinês para o período 2026-2030 prevê apenas 10 delas.

As 11 linhas atualmente propostas para atender as megabases combinam 129 GW de eólica e solar com 40 GW de carvão. Ou seja: a matriz projetada para essas conexões fica dividida quase meio a meio entre renováveis e combustível fóssil. Para Aiqun Yu, estrategista sênior para o Leste Asiático do GEM e autor do relatório, a proporção elevada de carvão é difícil de conciliar com a visão dos formuladores de políticas de que o carvão deveria ter apenas um papel de apoio pontual no sistema elétrico.

O que isso muda na prática?

Para quem acompanha o tema de longe, o resumo é o seguinte: a China está fazendo a lição de casa de instalar capacidade renovável em volume impressionante, mas sem resolver a engenharia de transmissão, boa parte dessa energia limpa não chega onde precisa ou não substitui carvão de fato. As linhas UHVDC atuais funcionam como um "pacote casado" — renovável e carvão andam juntos no mesmo cabo.

Isso significa que, mesmo com recordes de instalação solar e eólica, a pegada de carbono do sistema elétrico chinês não cai na velocidade esperada. A eólica e a solar continuam presas a uma rede que foi construída com a termelétrica como peça central, e não como peça de backup.

Outro ponto sensível é a conta: construir uma linha UHVDC é caro, demora anos e exige licenciamento ambiental em regiões sensíveis. Se a China conseguir construir só 10 das 27 linhas necessárias até 2030, vai sobrar capacidade renovável instalada sem para onde mandar a energia — o famoso "curtailment", quando turbinas eólicas e painéis solares são desligados porque a rede não tem capacidade de absorver tudo.

Por que isso importa para quem está no Brasil

O Brasil vive um debate parecido, embora em escala menor. O Norte e o Nordeste concentram o maior potencial solar e eólico do país, e a energia precisa ser levada para os centros de carga no Sudeste por meio de linhas de transmissão que também precisam lidar com a intermitência das renováveis. O caso chinês mostra que não basta instalar painéis e turbinas — o gargalo está na infraestrutura que conecta tudo isso à tomada.

A lição que fica é clara: transição energética de verdade exige planejamento integrado de geração e transmissão. Quando as linhas são pensadas para carregar carvão junto, a conta de carbono não fecha, mesmo que a meta de capacidade limpa seja atingida.

O relatório do Global Energy Monitor serve como um alerta para que outros países que apostam em megabases renováveis — caso do próprio Brasil com seus projetos no sertão e na caatinga — não repitam o erro de tratar a transmissão como detalhe técnico secundário. Ela é, na verdade, o ponto onde a transição vence ou perde.

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Jornalista

Mariana Silva

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