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Russos sacam R$ 147 bi dos bancos por medo de confisco

Russos sacam R$ 147 bi dos bancos por medo de confisco

Após bloqueio de contas e sanções europeias, corrida por papel-moeda se intensifica. Analistas preveem impactos no sistema financeiro global.

Russo sacado do banco, nota contada em casa. Nos últimos meses, a população da Rússia tem retirado cifras bilionárias de suas contas bancárias e convertido tudo em dinheiro vivo. Em apenas sete meses de 2025, mais de 2,4 trilhões de rublos — o equivalente a R$ 147,5 bilhões — saíram do sistema financeiro formal rumo a cofres, gavetas e colchões. O movimento não é à toa: cresce o medo de que o regime de Vladimir Putin confieque depósitos para bancar a guerra contra a Ucrânia, que já consome gordas fatias do orçamento e das reservas internacionais do país.

O tamanho do estrago nos bancos

Os números divulgados pelo Banco Central da Rússia e compilados pelo jornal americano The Washington Post são expressivos. Somente na primeira quinzena de agosto, os russos tiraram 286,4 bilhões de rublos (R$ 17,6 bilhões) das contas. Em julho, o volume já havia sido ainda maior: 643 bilhões de rublos deixaram os bancos no mês. O ritmo é tão intenso que, se mantida a tendência, o total sacado em 2025 pode quase dobrar o montante retirado no primeiro ano da invasão em larga escala, em 2022, quando 2 trilhões de rublos foram convertidos em espécie.

Os grandes bancos sentiram o baque. O Alfa-Bank, maior instituição privada do país, perdeu 179,4 bilhões de rublos em depósitos de pessoas físicas — o equivalente a 5,6% de tudo o que clientes de varejo tinham guardado ali. O Sovcombank, terceiro maior banco privado, viu 8,1% dos depósitos evaporarem, num total de 81,7 bilhões de rublos. Tariar Skvortsov, executivo do Sberbank (o maior banco estatal da Rússia), confirmou que o ritmo preocupa e alertou para o potencial de dobrar o volume de 2022.

Por que os russos estão com medo de confisco?

A origem da desconfiança é o estado das finanças russas no quinto ano de conflito. A guerra drenou boa parte das reservas internacionais acumuladas em anos de exportação de petróleo e gás, e o orçamento público está com rombo. Para manter o esforço militar, o Kremlin precisou aumentar gastos com defesa, sustentar o pagamento a soldados e mobilizar a economia em torno da indústria bélica. Tudo isso em meio a sanções ocidentais que limitam o acesso da Rússia a mercados e tecnologia.

Historicamente, governos em dificuldade financeira recorreram a medidas extremas para levantar caixa — desde o confisco de poupança de cadernetas de poupança, como na crise russa de 1998, até restrições de retirada em bancos, como já aconteceu em países em turbulência. É essa memória que alimenta o medo atual. No imaginário popular, o passo entre "taxa extra sobre grandes depósitos" e "apreensão direta de valores" parece mais curto do que nunca.

O que isso muda na prática?

Para o russo comum, a decisão é bastante concreta: guardar o dinheiro em espécie, muitas vezes em dólares ou euros comprados no mercado paralelo, ou converter para ativos que fiquem fora do alcance do Estado — como imóveis e ouro. Essa mudança de comportamento tem efeito direto na liquidez do sistema bancário, que perde a capacidade de emprestar e financiar a economia, e pressiona o câmbio, já que a procura por moeda forte dispara quando o rublo desvaloriza.

Para o restante do mundo, o movimento serve como termômetro do grau de tensão dentro da Rússia. Quanto mais a população desconfia das instituições oficiais, mais frágil fica a base de sustentação financeira do regime. E, em situações extremas, esse tipo de corrida bancária pode levar o governo a impor controles de capital — limites de saque, proibição de transferência para o exterior —, o que costuma aprofundar a crise de confiança e gerar efeito cascata sobre o câmbio e a inflação.

Há ainda um componente simbólico. Um ex-funcionário do Ministério das Finanças, que falou ao Washington Post em anonimato, resumiu o clima em uma frase que virou símbolo do momento: "Os drones estão voando. Está pegando fogo. O nervosismo está aumentando. E talvez a sabedoria popular esteja se manifestando, levando as pessoas a perceber que precisam guardar dinheiro debaixo do travesseiro, e não em algum lugar nos bancos, de onde talvez nunca seja devolvido."

O que se pode aprender com isso?

Mesmo estando longe da Rússia, o episódio lembra um princípio básico de educação financeira: diversificar faz parte de proteger o patrimônio. Não se trata de tirar todo o dinheiro do banco — o que seria contraproducente em qualquer economia —, mas de entender que depender de uma única forma de guardar valor expõe a pessoa a riscos que vão da inflação à interferência governamental. Ter reserva de emergência, parte dela em ativos líquidos e parte em investimentos com rendimento real, continua sendo a regra mais sólida.

O cenário russo também ajuda a dimensionar como conflitos se traduzem em pressão sobre a vida cotidiana de quem não está diretamente na linha de frente. A guerra, antes de tudo, cobra caro do bolso de cada cidadão — algo que vale tanto para Moscou quanto para qualquer capital do mundo.

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Jornalista

Fernanda Costa

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