Mudanças nos hábitos de consumo revelam como a segunda maior economia do mundo passou a se relacionar de outra forma com o futebol
Durante anos, a Copa do Mundo era quase um “marco cultural” na China: a seleção gerava ansiedade gostosa, o torneio reorganizava rotinas e, por semanas, o país parecia girar em torno dos jogos.
Agora, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o clima é diferente — e um sinal prático disso aparece nas negociações de transmissão. Segundo o Beijing Daily, a China Media Group (CMG), emissora estatal responsável por exibir o torneio, demorou mais para fechar o acordo porque os valores pedidos pela Fifa ficaram acima do orçamento previsto. No fim, o anúncio saiu poucas semanas antes do início da competição.
O que parece apenas “comercial” na verdade ajuda a explicar um movimento maior: a Copa do Mundo segue relevante, mas deixou de ser o evento que domina sozinha o calendário de atenção. A própria forma como as conversas foram conduzidas — mais lentas, mais caras e com anúncio mais tardio — sugere que a competição já não tem a mesma força automática de antes.
Uma pesquisa recente na China reforça essa leitura ao mostrar duas percepções importantes entre torcedores: muitos consideram os preços dos direitos altos demais e, ainda mais interessante, parte do público concorda com a ideia de que a Copa precisa mais do público chinês do que o público precisa dela. Em outras palavras: o torneio continua valioso, mas deixou de ser indispensável no dia a dia como era para uma geração que cresceu com a seleção como referência constante.
Isso combina com o contexto de mudança de consumo. Quando a China participou de sua única Copa do Mundo em 2002, o futebol internacional ocupava um espaço maior no imaginário popular. Hoje, a China tem um cardápio muito maior de entretenimento: séries, plataformas digitais, transmissões ao vivo, videogames, redes sociais e esportes locais competem diretamente pelo tempo e pela atenção de quem assiste.
No fim, a pergunta “por que não assusta?” é menos sobre falta de interesse e mais sobre redistribuição do tempo. A Copa perdeu o papel de “centro absoluto”, mas continua sendo um dos atrativos — principalmente para quem quer acompanhar, discutir e torcer naquele período.
O que isso muda na prática?
Para o torcedor, a mudança é bem concreta: a Copa tende a entrar na rotina como mais um evento relevante, e não como uma interrupção total do cotidiano. Na prática, isso costuma aparecer em três pontos: menos “efeito de espera” (ninguém precisa atravessar a madrugada como regra), mais alternativas para assistir e mais disputa por tempo — já que dá para alternar entre conteúdos e outras formas de entretenimento enquanto os jogos acontecem.
Resumo rápido: a Copa do Mundo continua forte na China, mas perdeu o “controle total” da atenção — algo que aparece tanto nas negociações de transmissão quanto na diversificação do consumo de entretenimento.
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