O ator Raymundo de Souza, de 74 anos, conhecido por participações em novelas da Record, perdeu R$ 19 mil após cair em um golpe aplicado por um falso técnico de computador. O caso, divulgado pelo programa Balanço Geral, expõe mais do que a história de uma celebridade vitimada: revela um esquema que mira especificamente pessoas com mais de 60 anos que têm dificuldade com tecnologia.
Como o golpe funcionou passo a passo
Raymundo havia comprado um notebook novo e contratou uma empresa que promete oferecer assistência técnica e cursos de tecnologia para o público acima dos 60 anos. Foi por meio desse canal — aparentemente legítimo — que ele recebeu a ligação do golpista.
O homem se apresentou como funcionário da plataforma de suporte e conduziu Raymundo para uma videochamada. Nesse ponto, pediu que o ator compartilhasse a tela do computador. Com o acesso visual, o criminoso orientou a vítima a abrir o aplicativo do banco, com a justificativa de verificar se havia alguma cobrança indevida na conta.
Ao digitar a senha bancária durante a videochamada, Raymundo deu ao golpista exatamente o que ele precisava. Pouco depois, percebeu que suas contas estavam zeradas. Segundo o relato, o fraudador ainda fez pedidos de empréstimos em nome do ator, o que amplia o estrago financeiro.
Por que esse tipo de golpe pega tanta gente?
O caso do Raymundo não é exceção. Dados de pesquisas sobre crimes digitais no Brasil mostram que adultos acima de 60 anos estão entre os alvos preferidos de golpistas que se passam por suporte técnico. A combinação de três fatores torna esse público vulnerável: menor familiaridade com ferramentas digitais, confiança em marcas que se anunciam como "especializadas" para a terceira idade e a dependência de alguém para resolver tarefas simples como instalar um antivírus.
O diferencial desse golpe é o uso do compartilhamento de tela como ferramenta de manipulação. Quando o criminoso vê o que a vítima vê, ele ganha poder de persuasão: orienta cada clique, mostra caminhos falsos e mantém a pessoa focada na "ajuda" enquanto coleta informações sensíveis em tempo real. É um tipo de engenharia social que transforma a própria tela em arma.
O que isso muda na prática para quem usa computador e celular?
Se você tem mais de 60 anos — ou ajuda alguém nessa faixa etária a usar tecnologia —, alguns cuidados simples reduzem bastante o risco de cair em armadilhas parecidas.
Em primeiro lugar, desconfie de qualquer ligação recebida sobre problemas no seu computador ou celular. Empresas legítimas de antivírus, como Microsoft, Norton, McAfee ou Kaspersky, não ligam do nada para oferecer suporte. Se você não contratou o serviço e ninguém te avisou por escrito, provavelmente é golpe. Desligue e ligue você mesmo para o número oficial que aparece no site da empresa.
Em segundo lugar, nunca compartilhe a tela com estranhos, especialmente se houver qualquer orientação para abrir o aplicativo do banco. Nenhuma instituição financeira, nenhum suporte técnico e nenhum programa de proteção precisa da sua senha ou da visualização da sua conta. Se alguém pedir isso, o alerta vermelho deve acender imediatamente.
Por fim, vale considerar o uso de autenticação em dois fatores no banco e limites de transferência mais baixos no aplicativo. Muitos bancos permitem configurar um teto diário menor para transações via Pix e TED, o que limita o estrago em caso de acesso indevido. Também é possível bloquear remotamente o aplicativo entrando em contato com a central do banco logo após perceber o golpe — quanto mais rápido o aviso, maiores as chances de recuperar parte do dinheiro ou impedir novos empréstimos.
Quando o golpe já aconteceu: o que fazer?
No caso do Raymundo, a perda foi de R$ 19 mil, sem contar os empréstimos que podem ter sido contratados em seu nome. Para quem passou por situação semelhante, o caminho inclui registrar um boletim de ocorrência (pode ser feito online em muitos estados), acionar o banco imediatamente, contestar as transações e, se houver suspeita de crédito não autorizado, procurar o Procon ou o Banco Central para abrir reclamação formal.
Muitos casos de fraude com engenharia social são cobertos pelo Código de Defesa do Consumidor e por resoluções do Banco Central que responsabilizam instituições financeiras por falhas de segurança em transações não reconhecidas pelo cliente — mas isso exige comprovação de que a operação não foi autorizada, por isso a importância de agir rápido.
Um alerta que vale para toda a família
A história do ator Raymundo de Souza serve de lembrete para além do público idoso. Qualquer pessoa que dependa de terceiros para configurar dispositivos, instalar programas ou resolver dúvidas técnicas pode ser alvo do mesmo tipo de abordagem. Antes de aceitar uma chamada de suporte, vale perguntar: quem me ligou primeiro, eu ou eles? Se a resposta for "eles me ligaram", é bom ter cautela redobrada. A melhor defesa contra golpes de falso técnico continua sendo a mesma: paciência para verificar, desconfiança saudável e senha sempre guardada a sete chaves.
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