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Tubarões com sensores viram aliados na previsão de furacões

Tubarões com sensores viram aliados na previsão de furacões

Tecnologia subaquática rastreia sinais naturais do oceano e antecipa tempestades, salvando vidas antes da tragédia

Pesquisadores da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, estão apostando em tubarões como aliados improváveis na previsão de furacões. A ideia é simples na proposta, mas sofisticada na execução: prender sensores eletrônicos nesses animais para que eles coletem dados do oceano em tempo quase real, alimentando modelos meteorológicos que antecipam a intensidade e a trajetória de tempestades antes de elas atingirem a costa.

Por que tubarões e não satélites?

Quem acompanha a previsão do tempo pelo celular pode estranhar a pergunta. Satélites e boias oceanográficas já monitoram o mar há décadas. O problema é que esses sistemas cobrem grandes áreas, mas com baixa resolução, e têm dificuldade em capturar o que acontece logo abaixo da superfície, onde a água encontra o ar e os furacões ganham força.

Foi aí que os tubarões entraram na história. Segundo Aaron Carlisle, pesquisador principal do projeto e professor da Escola de Ciências Marinhas e Políticas da universidade, esses animais são abundantes, estão distribuídos por grande parte dos oceanos e são mais fáceis de acessar do que mamíferos marinhos protegidos, como os elefantes-marinhos, que já vinham sendo usados em regiões polares com a mesma finalidade.

Como os sensores funcionam?

As etiquetas acopladas aos tubarões são pequenos dispositivos eletrônicos que medem três variáveis enquanto o animal nada e mergulha: temperatura da água, profundidade e condutividade elétrica — um indicador diretamente ligado à salinidade. Esses três dados juntos permitem reconstruir perfis detalhados das condições oceânicas em regiões onde boias e sensores fixos não chegam.

Para o leitor leigo, basta entender o seguinte: a temperatura e a salinidade da superfície do mar são dois dos fatores mais importantes para prever se um furacão vai se fortalecer ou enfraquecer. Água morna e menos salgada tende a alimentar tempestades. Saber isso com precisão, em alta resolução espacial, pode fazer diferença entre uma evacuação preventiva e um alerta que chega tarde demais.

O que isso muda na prática?

Modelos de previsão mais afinados significam margens de erro menores na estimativa de onde e com que força um furacão vai tocar o solo. Para quem mora no litoral leste dos EUA — ou em qualquer região costeira vulnerável a ciclones, inclusive no Brasil — esse tipo de refinamento pode se traduzir em rotas de evacuação mais certeiras, menos transtornos para comunidades inteiras e, em última instância, mais vidas salvas.

Até agora, o uso de etiquetas em tubarões se limitava a rastrear deslocamento e mapear habitats. O diferencial do projeto de Delaware é justamente transformar esses animais em plataformas móveis de coleta de dados oceanográficos e climáticos, aproveitando o comportamento natural da espécie: tubarões nadam por grandes áreas costeiras justamente nas regiões onde furacões costumam se formar e ganhar força.

Um precedente que veio do frio

A estratégia não nasceu do zero. Oceanógrafos já utilizam sensores em elefantes-marinhos da Antártida há anos, e os resultados foram tão positivos que a comunidade científica passou a buscar espécies substitutas em outras latitudes. Os tubarões preencheram esse papel por uma questão prática: são mais numerosos, menos protegidos por leis ambientais restritivas e circulam por zonas tropicais e subtropicais — justamente o cinturão onde furacões e ciclones tropicais se formam.

O cinema adorou transformar tubarões em vilões de filmes de verão, de "Tubarão" (1975) aos exageros da franquia "Sharknado". A realidade, como costuma acontecer, é bem mais útil e menos sensationalista: em vez de assustar banhistas, esses predadores podem estar ajudando comunidades inteiras a se prepararem para tempestades com mais antecedência.

O que vem pela frente

O projeto ainda está em fase de testes, mas abre uma frente promissora para a meteorologia costeira. Se os sensores forem capazes de fornecer dados consistentes sobre temperatura e salinidade ao longo das trajetórias dos tubarões, os modelos de previsão podem incorporar essas informações para gerar alertas mais precisos. Para o público em geral, a lição é direta: nem todo avanço em previsão do tempo vem de um satélite. Às vezes, vem nadando.

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Jornalista

André Santos