Em abril de 2024, um radar da NASA que deveria apenas mapear a camada de gelo da Groenlândia acabou revelando algo inesperado: os restos do Camp Century, uma base militar americana construída durante a Guerra Fria e soterrada sob mais de 30 metros de gelo desde 1967. O achado, feito por acaso, reacendeu um alerta ambiental que pesquisadores já tinham levantado anos antes — o de que o degelo do Ártico pode devolver à superfície toneladas de lixo tóxico, incluindo combustível e resíduos radioativos.
O que era o Camp Century e por que ele importa agora
O Camp Century começou a ser construído em 1959 pelo Exército dos Estados Unidos, no norte da Groenlândia. Oficialmente, era apresentado como um laboratório para estudar técnicas de construção no Ártico e pesquisas científicas em ambiente extremo. Por baixo, porém, envolvia um projeto bem mais ambicioso: avaliar a viabilidade de instalar uma rede de mísseis nucleares escondida sob a camada de gelo.
A infraestrutura era grande para os padrões locais. Havia alojamentos, oficinas, laboratórios e até uma usina nuclear portátil, o reator PM-2A, que fornecia energia para a base operar em condições de isolamento quase total. Um relatório do Corpo de Engenheiros do Exército, publicado em 1961, documenta a construção, a instalação e o início da operação desse reator.
Quando os Estados Unidos abandonaram o projeto, em 1966, e a base foi de fato desativada em 1967, a expectativa era de que o acúmulo contínuo de neve manteria tudo congelado para sempre. A ideia era simples: cobrir, selar e esquecer.
O radar que desenterrou um segredo sem querer
O voo de abril de 2024 fazia parte de testes com o UAVSAR, um radar aerotransportado da NASA instalado em um Gulfstream III. A missão, conduzida por uma equipe do Jet Propulsion Laboratory, tinha como objetivo estudar a estrutura da camada de gelo groenlandesa.
Só que o radar tem uma característica diferente dos sensores tradicionais: ele consegue olhar tanto para baixo quanto para os lados. Isso permite enxergar detalhes internos do gelo que levantamentos convencionais não alcançam. Quando os sinais foram comparados com plantas históricas da base, estruturas paralelas apareceram exatamente onde ficava a antiga rede subterrânea de túneis do Camp Century.
O cientista da criosfera Alex Gardner, que integrava a equipe, contou que ninguém a bordo percebeu inicialmente que o radar estava captando a antiga base militar. Foi só depois, no processamento dos dados, que a coincidência ficou evidente. A NASA deixou claro que a imagem surgiu por acidente e que o uso científico específico dessas informações ainda está sendo avaliado.
Por que o degelo preocupa pesquisadores desde 2016
Mais do que uma curiosidade histórica, a redescoberta do Camp Century confirma um cenário que cientistas já vinham apontando. Um estudo liderado pelo glaciologista William Colgan, publicado em 2016 na Geophysical Research Letters, estimou que estão abandonados no local cerca de 9.200 toneladas de materiais físicos e aproximadamente 200 mil litros de diesel.
Junte isso a esgoto, produtos químicos e resíduos radioativos ligados ao reator PM-2A, e tem-se um passivo ambiental enterrado que nunca foi tratado. Na prática, o Camp Century funciona como um lixero do Ártico selado a frio — um arranjo que depende exclusivamente de o gelo continuar lá para não vazar.
O problema é que o Ártico está aquecendo mais rápido do que qualquer outra região do planeta. Com a perda gradual de massa de gelo na Groenlândia, a conta muda: a mesma neve que deveria manter a base eternamente congelada está, em alguns pontos, derretendo e expondo o que ficou preso por décadas.
O que isso muda na prática?
Para quem vive longe do Ártico, a história pode parecer distante. Mas o Camp Century virou um caso emblemático na discussão sobre passivos ambientais da Guerra Fria — e há dezenas de instalações semelhantes enterradas em regiões polares, criadas por diferentes países durante o mesmo período.
Na prática, três pontos merecem atenção:
- Risco de contaminação real — se o degelo continuar no ritmo atual, parte desses resíduos pode chegar a cursos d'água e, eventualmente, ao oceano, com impactos imprevisíveis em cadeias alimentares locais.
- Custo de limpeza impossível hoje — limpar uma base coberta por dezenas de metros de gelo, em região remota e sem infraestrutura, é algo que nenhuma tecnologia atual consegue fazer de forma simples e barata.
- Lições para o futuro — o episódio mostra que abandonar resíduos em ambientes extremos contando com o clima para "guardá-los" é uma estratégia que o aquecimento global tornou obsoleta.
Para os pesquisadores, a redescoberta pelo radar da NASA tem um valor extra além do ambiental: ela mostra que existem ferramentas capazes de mapear essas estruturas enterradas sem precisar escavar o gelo. Isso pode ajudar, no futuro, a monitorar outros sítios parecidos antes que voltem à superfície por conta própria.
O Camp Century segue sob o gelo por enquanto. A questão que fica não é se ele vai reaparecer um dia, mas em que condições isso vai acontecer — e se o mundo vai estar preparado para lidar com o que foi deixado para trás.
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