Natuza Nery falou sobre mansplaining ao defender Renata após Lula
Jornalista criticou o comportamento do candidato, que discordou de uma pergunta feita durante entrevista
Durante a sabatina com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite de quinta-feira, 27, a jornalista Natuza Nery usou o termo "mansplaining" para descrever a postura do político ao sugerir como Renata Vasconcellos deveria ter formulado uma pergunta sobre ajuste fiscal e dívida pública. O momento aconteceu no programa Central das Eleições, da GloboNews, logo após o término da entrevista.
O episódio chamou atenção porque não se trata apenas de uma divergência entre jornalista e entrevistado — algo corriqueiro em sabatinas eleitorais. A questão central é o comportamento: um homem adulto, em posição de poder, se sentindo no direito de ensinar a uma profissional experiente como ela deveria conduzir o próprio trabalho. Foi exatamente isso que Natuza identificou e nomeou publicamente, usando um conceito que já faz parte do debate sobre relações de gênero há anos, mas que ganhou visibilidade renovada no contexto político brasileiro.
Para o leitor comum, o impacto vai além do telejornal. Situações como essa revelam como mulheres ainda precisam lidar com a descredibilização sutil da sua competência em ambientes profissionais — mesmo quando ocupam cargos de destaque. Reconhecer o mansplaining, seja em uma entrevista presidencial ou em uma reunião de escritório, é o primeiro passo para cobrar condutas mais respeitosas. O simples ato de nomear o problema evita que ele se normalize como "jeito de ser" ou "personalidade forte".
O contexto da pergunta de Renata ajuda a dimensionar o episódio: ela questionou Lula sobre a dívida pública, que ultrapassou 82% do PIB durante o governo, e cobrou metas concretas de ajuste fiscal no programa de governo. Em vez de responder diretamente ao mérito, Lula sugeriu que a jornalista começasse a pergunta "falando diferente" — inclusive propondo uma reformulação que destacava um suposto feito positivo do seu primeiro mandato. A tentativa de desviar o foco da cobrança técnica para uma narrativa pessoal é um recurso retórico conhecido, mas que perde força quando a entrevistada tem preparo para devolvê-lo ao eixo principal.
O episódio também expõe um padrão observado em coberturas eleitorais: candidatos tendem a tratar perguntas difíceis como ataques pessoais, e entrevistadoras mulheres costumam receber uma parcela desproporcional desse tipo de reação. Ao defender Renata publicamente, Natuza não fez apenas um gesto de coleguismo — ela reforçou um padrão de qualidade jornalística e abriu espaço para que o telespectador avalie o comportamento de forma crítica.
Para quem acompanhou a entrevista, a lição prática é simples: nem toda discordância entre entrevistador e entrevistado é conflito jornalístico legítimo. Quando alguém sugere que uma profissional reformule uma pergunta tecnicamente embasada para que soe mais confortável ao entrevistado, o que está em jogo não é o formato da pergunta, mas o respeito à autonomia profissional. Identificar isso é um exercício de cidadania que vale tanto na política quanto no cotidiano.
O que isso muda na prática?
Na prática, o episódio lembra que mulheres em posições de autoridade — jornalistas, executivas, servidoras públicas — continuam enfrentando tentativas de descredibilização disfarçadas de "sugestão" ou "orientação". Para o leitor, a mudança concreta está em desenvolver um olhar mais atento: toda vez que alguém sugere que uma mulher deveria "perguntar de outro jeito", "explicar melhor" ou "ser mais sutil", vale questionar se a mesma cobrança seria feita a um colega homem nas mesmas circunstâncias. Esse tipo de reflexão ajuda a criar ambientes profissionais mais equilibrados e reduz a naturalização de condutas que reforçam desigualdades.
Resumo rápido: A jornalista Natuza Nery classificou como "mansplaining" a postura de Lula ao sugerir como Renata Vasconcellos deveria formular uma pergunta sobre dívida pública durante a sabatina eleitoral.
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