Presidente do CEBDS lidera carta de orientações para candidatos à presidência sobre economia verde em planos de governo
Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), concedeu entrevista ao Estadão defendendo uma ideia simples, mas poderosa: o Brasil tem duas vantagens raras no cenário global — seus ativos ambientais e uma posição geopolítica que não depende de alinhamentos extremos. Para ela, esses pontos colocam o País como peça-chave para qualquer solução mundial em sustentabilidade.
Essa posição ganhou forma concreta no fim de agosto, quando o CEBDS publicou a "Carta aos Presidenciáveis", um documento que reúne orientações do setor privado para que candidatos à Presidência incluam a agenda verde em seus planos de governo. A carta gira em torno de dois eixos: proteção da natureza e aceleração e financiamento da economia verde.
Por que isso importa para quem não está diretamente envolvido no debate ambiental? Porque as decisões tomadas agora — em 2024, às vésperas de um novo ciclo eleitoral — vão moldar o custo de energia, a segurança jurídica sobre terras, a atratividade de investimentos estrangeiros e até o preço de produtos que dependem de crédito de carbono. Ou seja, não é só papo de ambientalista: é economia real.
Entre os pontos levantados por Grossi, dois se destacam como urgentes. O primeiro é a regularização fundiária — resolver quem é dono de quê em milhões de hectares. Isso afeta diretamente o combate ao desmatamento, à grilagem e à criminalidade, além de abrir caminho para créditos de carbono. O segundo é a implementação do mercado de carbono brasileiro, que segundo ela é uma "vantagem competitiva muito grande", mas precisa de regras claras para que o País não perca valor na hora de vender créditos para outros países.
Um detalhe interessante do discurso de Grossi é a recusa em polarizar. Ela afirma que o CEBDS não quer "tomar partido" — quer que todos os candidatos tratem a pauta verde como pauta de competitividade, não como bandeira ideológica. A lógica é pragmática: a energia mais barata do Brasil já é a mais limpa. Então, em vez de só atrair data centers estrangeiros, por que não usar essa energia como base para uma nova indústria nacional?
O contraste com o debate político atual é nítido. Enquanto candidatos falam de forma "muito superficial", segundo Grossi, o setor empresarial já está articulado e unido em torno do tema. A mensagem final é direta: sair do "ou isso ou aquilo" e entrar no "como vamos fazer". Execução, planejamento e previsibilidade regulatória são o que falta para atrair capital e destravar a agenda.
Para o leitor comum, a reflexão que fica é: acompanhar essas propostas durante a campanha eleitoral não é tarefa de especialista. Saber se o candidato tem um plano concreto para regularização fundiária, mercado de carbono e segurança jurídica pode indicar quem está pronto para transformar potencial em resultado — e quem ainda está no campo das promessas vagas.
O que isso muda na prática?
Se a regularização fundiária avançar, quem mora ou trabalha em áreas com documentação irregular ganha segurança jurídica para acessar crédito, financiamentos e programas governamentais. Se o mercado de carbono for implementado de forma séria, empresas brasileiras que já investem em práticas sustentáveis podem monetizar esse esforço e ficar mais competitivas internacionalmente — o que, no médio prazo, pode gerar mais empregos verdes e produtos mais baratos. No cotidiano, os efeitos aparecem na conta de luz (energia renovável tende a ser mais barata), no preço de alimentos (menos desmatamento significa produção mais estável) e na atração de investimentos que geram renda e emprego dentro do País.
Resumo rápido: Marina Grossi, do CEBDS, defende que o Brasil tem vantagens únicas — ativos ambientais e neutralidade geopolítica — e que candidatos à Presidência precisam tratar a economia verde como política de Estado, com foco em regularização fundiária e mercado de carbono, em vez de usar o tema como bandeira de polarization ideológica.
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