Segundo o vencedor do Nobel de Economia, recuperação da infraestrutura venezuelana custará bilhões de dólares, e boa parte do petróleo do país é de extração difícil e cara
O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2008, usou sua coluna no Substack para desferir uma crítica pesada ao acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, envolvendo as reservas de petróleo da Venezuela. Para Krugman, o que está em jogo não é uma parceria comercial ou uma estratégia energética: seria, segundo ele, uma reedição moderna do "imperialismo extrativista" do século 19 — quando potências europeias invadiam países para simplesmente levar suas riquezas naturais.
A questão central, segundo Krugman, é que o acordo promete benefícios econômicos quase nulos para os EUA, mas pode gerar custos geopolíticos enormes nas próximas décadas. Trump afirmou que Washington teria obtido "controle majoritário" sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo venezuelano, por meio de parcerias com empresas privadas. O presidente disse ainda que a operação mais do que dobraria as reservas americanas e reduziria substancialmente os preços dos combustíveis.
Mas o Nobel contesta ponto a ponto. Ele fez as contas: mesmo considerando uma margem de lucro de US$ 20 por barril sobre os 65 bilhões citados por Trump, o valor máximo do acordo giraria em torno de US$ 1,3 trilhão — distribuídos ao longo de muitos anos. Parece muito, mas representa menos de 1% da riqueza total dos EUA, estimada por Krugman em US$ 167 trilhões. Ou seja, na prática, seria um esforço enorme para um ganho financeiro quase irrelevante.
Para complicar ainda mais, a infraestrutura petrolífera da Venezuela está em estado precário após anos de crise econômica, sanções e má gestão. Recuperá-la exigiria investimentos de dezenas de bilhões de dólares e poderia levar anos — ou décadas. Boa parte das reservas venezuelanas está na Bacia do Orinoco, uma região onde a extração é tecnicamente difícil e cara, porque o petróleo é mais pesado e exige processamento mais complexo. Mesmo que tudo desse certo, o efeito no preço da gasolina americana só seria sentido a longo prazo, não no curto prazo.
Há ainda um risco político nada desprezível: governos futuros na Venezuela podem simplesmente recusar os termos do acordo ou até expropriar os investimentos americanos, deixando empresas e o próprio governo dos EUA sem garantia alguma. Krugman lembra que o acordo não tem relação com promoção de democracia, combate ao crime ou luta antiterror — o motor seria simplesmente o acesso ao petróleo.
O assunto ganha urgência justamente nesta terça-feira, quando Trump tem reunião fechada às 14h30 (horário de Brasília) com varejistas e refinarias de petróleo e gás na Casa Branca. O secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, adiantou que o encontro discutirá formas de reduzir os preços de combustível no país — o que, segundo Krugman, o acordo com a Venezuela dificilmente vai conseguir entregar em curto prazo.
O que isso muda na prática?
Para o leitor brasileiro, o impacto direto mais visível está nos preços globais do petróleo. Quando os EUA fazem movimentos dessa magnitude sobre grandes reservas de petróleo, o mercado internacional reage — e o Brasil, que importa derivados e tem sua economia sensível ao preço do barril, sente no bolso. Se o acordo realmente resultasse em mais petróleo no mercado a preços mais baixos, poderíamos ver uma redução nos preços da gasolina e do diesel por aqui. Mas, como Krugman aponta, esse efeito levaria anos, se é que aconteceria.
No curto prazo, o que deve acontecer é o oposto: volatilidade. Movimentos geopolíticos desse tipo costumam gerar oscilações nos contratos futuros do petróleo, o que pode se traduzir em reajustes para cima ou para baixo nos postos brasileiros nas semanas seguintes. Para quem dirige, usa transporte por aplicativo ou depende de logística, vale ficar atento ao preço dos combustíveis nas próximas semanas como termômetro dessas movimentações.
Para quem investe ou acompanha o mercado financeiro, o acordo é mais um capítulo da tensão entre EUA e países da América Latina, o que pode afetar ações de empresas do setor de energia e até títulos de países emergentes. É o tipo de notícia que não muda a vida da noite para o dia, mas ajuda a entender o cenário macro que influencia inflação, câmbio e investimentos.
Resumo rápido: O Nobel de Economia Paul Krugman classificou o acordo de Trump para controlar petróleo venezuelano como "imperialismo extrativista" e afirmou que os benefícios econômicos para os EUA seriam mínimos diante dos custos diplomáticos e da dificuldade técnica de explorar essas reservas.
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