Mesmo com as taxas de juros para crédito de veículos batendo entre 25% e 30% ao ano, o brasileiro voltou a financiar mais carros, motos, caminhões e ônibus. No primeiro semestre de 2026, foram 3,78 milhões de operações de financiamento contratadas no país — o melhor resultado para o período desde 2008, quando o mercado ainda vivia o boom pré-crise financeira.
Mais de 10% de crescimento em um ano
O volume de contratos cresceu 10,9% em relação ao primeiro semestre de 2025. Os números englobam automóveis de passeio, comerciais leves, motocicletas, caminhões e ônibus — incluindo modelos novos e usados. Todas as regiões do Brasil registraram expansão no período, o que mostra que o movimento não se concentrou em um único estado ou polo econômico.
O dado destoa do esperado em um cenário de crédito caro. Normalmente, quando os juros sobem, o consumidor adia a compra ou busca alternativas à vista. Mas o que se vê em 2026 é o oposto: o financiamento segue em alta justamente porque o veículo deixou de ser visto como bem supérfluo e passou a ser tratado como ferramenta de trabalho e de mobilidade cotidiana.
Usados lideram, e o prazo dos contratos continua subindo
Os veículos usados responderam pela maior fatia do mercado de crédito entre janeiro e junho: 2,38 milhões de unidades financiadas, contra 1,39 milhão de veículos novos. É praticamente o dobro de operações em comparação aos modelos zero quilômetro.
A explicação para essa preferência é simples: o usado custa menos, exige entrada menor e cabe no orçamento de quem não tem como aguardar meses por uma entrega de concessionária. Em um cenário de inflação persistente e renda apertada, o carro seminovo virou a saída para quem precisa se locomover com urgência.
Para tornar a parcela mais palatável, os consumidores estão alongando o prazo de pagamento. No caso de automóveis e comerciais leves, o prazo médio saltou de 46,3 para 47,2 meses em um ano. Quando o recorte é mais específico — veículos com até três anos de uso —, a média chega a 51,6 meses, ou seja, mais de quatro anos quitando o financiamento.
O que isso muda na prática?
Para quem está pensando em financiar um veículo agora, o recado do mercado é claro: o crédito existe e está fluindo, mas o custo total da operação tende a ser alto. Com juros próximos de 25% a 30% ao ano, uma parcela aparentemente acessível pode esconder um valor final muito acima do preço à vista do carro.
Antes de assinar o contrato, vale fazer uma simulação considerando o prazo total. Esticar o financiamento para reduzir a parcela mensal funciona no curto prazo, mas paga-se caro por isso. Um empréstimo de 48 meses a 28% ao ano pode transformar um veículo de R$ 50 mil em um gasto final de mais de R$ 80 mil. Por isso, comparar o CET (Custo Efetivo Total) entre pelo menos três instituições financeiras costuma valer o tempo investido.
Outra recomendação prática é usar o carro usado como estratégia de entrada. Quem tem um veículo para dar como parte do pagamento consegue reduzir tanto o valor financiado quanto o prazo, o que diminui o impacto dos juros. Bancos tradicionais, financeiras de montadora e plataformas digitais costumam aceitar essa modalidade, mas as avaliações variam bastante — negociar a avaliação antes de fechar o negócio faz diferença no resultado final.
Por que os números batem recorde mesmo com juros altos?
Três fatores ajudam a explicar esse paradoxo. Primeiro, a necessidade: em muitas regiões metropolitanas e cidades do interior, o transporte público é insuficiente, e o carro virou item essencial para trabalhar, estudar e resolver a vida cotidiana. Segundo, a confiança do consumidor melhorou nos últimos trimestres, puxada pela queda do desemprego e por medidas de transferência de renda. Terceiro, a oferta cresceu: montadoras e bancos estão mais agressivos nas condições, mesmo que os juros nominais sigam elevados.
O resultado é um mercado aquecido, com gôndolas cheias nas concessionárias e nas lojas de usados, mas com um consumidor mais endividado do que nos ciclos anteriores. Segundo dados recentes, a parcela de brasileiros com algum tipo de dívida bancária segue acima de 80%, o que coloca em alerta quem está prestes a entrar em um financiamento longo.
Se a compra for inevitável, a saída é planejar com antecedência: guardar a entrada, evitar parcelas que comprometam mais de 30% da renda familiar e preferir prazos mais curtos sempre que possível. O financiamento pode ser um caminho para conquistar o veículo, mas precisa caber no orçamento sem comprometer o restante do mês.
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