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E-sports: marcas que só patrocinam acabam pagando duas vezes

E-sports: marcas que só patrocinam acabam pagando duas vezes

Empresas que investem em ativação completa junto aos gamers conquistam mais audiência e evitam o desperdício de verba em ações isoladas.

Os e-sports deixaram de ser território exclusivo de fabricantes de hardware, desenvolvedoras de jogos e marcas de periféricos. Hoje, bancos, redes de fast-food, empresas de bebidas e marcas dos mais variados setores enxergam nos campeonatos de games uma comunidade engajada e, mais do que isso, um público consumidor com poder de compra. Mas a lição que muita empresa aprende da pior forma é simples: patrocinar um torneio e fazer parte dele são coisas completamente diferentes.

O público gamer percebe rápido quem está ali de verdade

Quem acompanha games tem um repertório próprio. Conhece os jogadores, as rivalidades, os memes, os momentos históricos de cada cena. Quando uma marca chega tentando reproduzir essa linguagem sem entendê-la de fato, a comunidade percebe. E não perdoa com silêncio — aponta, comenta, viraliza a gafe.

Isso não quer dizer que a porta esteja fechada para quem não nasceu no universo gamer. Marcas chamadas de "não endêmicas" — ou seja, aquelas cujo produto principal não tem relação direta com games — podem, sim, ocupar esse espaço e colher bons resultados. A questão central não é o segmento da empresa, mas a autenticidade da abordagem.

Por que a autenticidade pesa mais que o logo na tela

Existe um mito de que o público gamer rejeita qualquer tipo de publicidade ou patrocínio dentro dos seus ambientes. Na prática, a rejeição costuma ser direcionada a ações forçadas, genéricas ou que claramente tentam surfar uma tendência sem qualquer construção de relacionamento anterior com a comunidade.

Esse é o ponto que separa uma campanha que gera engajamento de uma que vira alvo de piada. O logo exibido durante a transmissão é a parte mais visível, mas é apenas a superfície. O que sustenta a relação entre marca e comunidade é o que acontece fora do holofote: conteúdo relevante, apoio real a jogadores e equipes, produtos que fazem sentido para aquele público e respeito à cultura em torno dos games.

O que isso muda na prática?

Para uma empresa que está considerando entrar no e-sports, a lição mais imediata é: patrocinar um campeonato não é o mesmo que investir em marketing de games. O primeiro passo é entender que se trata de uma comunidade com códigos próprios, e que ignorá-los custa caro em reputação.

Cases como os de Red Bull e Gillette, citados frequentemente nesse debate, são usados como referência justamente porque entenderam que o público gamer não responde bem a interruptions convencionais. Quando a marca consegue se inserir na rotina e na cultura da comunidade — seja por meio de ações que dialogam com o conteúdo, seja por produtos pensados para esse perfil de consumidor — o retorno vem de forma orgânica, sem a resistência típica que campanhas superficiais encontram.

Como uma marca não endêmica pode entrar nesse universo

Antes de colocar a logomarca numa transmissão, vale considerar alguns movimentos mais sólidos. O primeiro é ouvir: acompanhar criadores de conteúdo, entender quais pautas movimentam a comunidade, identificar os formatos que já funcionam. Isso ajuda a evitar campanhas genéricas que mais parecem um anúncio de TV adaptado à força.

O segundo passo é fazer escolhas que façam sentido para o público. Não basta ser o "patrocinador oficial" de um torneio se o produto da marca não tem nada a ver com quem está assistindo. A coerência é um dos critérios mais avaliados pela comunidade na hora de decidir se aceita a presença de uma marca ou se reage com desconfiança.

Por fim, vale lembrar que construção de marca em e-sports é maratona, não corrida de cem metros. Empresas que apostam em ações pontuais e somem tendem a não deixar rastro. Já aquelas que aparecem com frequência, apoiam jogadores, investem em conteúdo próprio e respeitam a audiência criam uma relação que vai além da campanha da vez.

O recado para gestores de marketing

O e-sports já é uma das poucas áreas do entretenimento que consegue reunir, em um único ambiente, milhões de espectadores engajados, com perfil de consumo ativo e disposição para interagir. Para os marketers, isso é uma mina de ouro. Para a comunidade, é um espaço cultural que merece o mesmo cuidado que qualquer outro público consolidado.

A conta é simples: quem entra com seriedade e constância colhe resultados reais. Quem entra achando que basta pagar para ter visibilidade acaba pagando duas vezes — uma pelo patrocínio e outra pela reputação arranhada. O jogo, como se costuma dizer, começou muito antes de a marca decidir participar.

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Jornalista

Renata Oliveira

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