A Inteligência Artificial já permite "imortalizar" um ator de uma forma completamente nova, dublando seus personagens com IA, o que tem causado diferentes repercussões e temores.
A ideia parece saída de ficção científica, mas já é realidade na indústria dos games: usar inteligência artificial para recriar a voz de um ator que já faleceu. Dois casos recentes ilustram como essa tecnologia pode funcionar — e como pode dar errado. O primeiro envolve o dublador polonês Miłogost "Miłek" Reczek, que deu voz a Viktor Vektor em Cyberpunk 2077 e faleceu em 2021. Dois anos depois, a CD Projekt Red lançou Phantom Liberty e decidiu manter o personagem com a voz original, reconstruída por IA. O segundo caso é o do lendário James Earl Jones, voz icônico do Darth Vader, que foi "trazido de volta" ao Fortnite em 2025 para conversar em tempo real com jogadores — o que não correu exatamente como planejado.
Por que isso importa? Porque estamos diante de uma fronteira nova no entretenimento digital. Até pouco tempo atrás, a solução para a morte de um dublador era simples, embora imperfeita: trocar o ator. Agora, a IA abre uma terceira via — manter a voz original através de clonagem vocal. Isso levanta questões que vão muito além da tecnologia: quem tem direito sobre a voz de alguém após a morte? A família pode autorizar? E os colegas de profissão, como ficam?
No caso de Cyberpunk 2077, a abordagem foi cautelosa. A CD Projekt Red utilizou uma tecnologia chamada Respeecher para ajustar a voz do novo dublador, Janusz Zadura, tornando-a mais próxima do estilo original de Reczek. Houve autorização da família e o público polonês recebeu a novidade de forma positiva, entendendo como uma homenagem respeitosa. Viktor Vektor é um personagem importante na jornada do protagonista V — funciona como uma figura paterna, um "porto seguro" moral — e a substituição brusca poderia quebrar a experiência de quem já tinha se apegado ao personagem.
O experimento do Fortnite seguiu um caminho diferente. A Epic Games usou dois modelos de IA conversacional — Google Gemini 2.0 Flash e ElevenLabs Flash v2.5 — para permitir que jogadores conversassem verbalmente com Darth Vader em tempo real. A ideia era ambiciosa: reviver um dos vilões mais icônicos do cinema de uma forma interativa. Na prática, porém, o resultado foi problemático. O personagem começou a dizer coisas sem sentido, proferir insultos e comentários ofensivos. O oposto de uma homenagem — quase uma distorção da memória do ator.
Para entender o impacto no dia a dia, pense em como você se sentiria jogando um título e percebendo que a voz do personagem foi gerada por máquina. Alguns jogadores nem vão notar. Outros vão sentir um desconforto difícil de explicar. E para os dubladores e atores profissionais, o cenário é ainda mais preocupante: a clonagem vocal pode representar uma ameaça direta ao mercado de trabalho. Se uma empresa pode usar a voz de alguém já falecido indefinidamente, a pressão sobre os profissionais vivos cresce — assim como o questionamento sobre저작권, valores e limites éticos.
O contraste entre os dois casos é didático. Cyberpunk mostra que é possível usar a tecnologia com sensibilidade, contexto e respeito — mesmo que nem todos concordem. Fortnite mostra que tecnologia sem curadoria e sem limites claros pode rapidamente sair do controle, especialmente quando envolve interação em tempo real com o público. Ambos tiveram autorização familiar, mas os resultados foram opostos. Isso sugere que o ponto-chave não é apenas "usar ou não usar IA", mas como usar.
Para o consumidor comum de games e entretenimento, a lição é ficar atento. A próxima vez que você ouvir uma voz "familiar demais" em um jogo ou produção, vale questionar: isso é o ator original, uma recriação por IA, ou uma mistura dos dois? A indústria ainda está aprendendo a lidar com essa nova realidade, e os primeiros experimentos já deixaram claro que o caminho entre a homenagem e a distorção é mais estreito do que parece.
O que isso muda na prática?
Se você é jogador, espere ver mais jogos usando vozes recriadas por IA — especialmente em sequências, DLCs ou remasterizações que envolvam personagens cujos dubladores originais já faleceram. Se você é fã de dublagem ou trabalha na área, fique de olho nas discussões sobre direitos de imagem e voz pós-morte, que ainda estão longe de ter regulamentação clara no Brasil. E se você simplesmente consome entretenimento, entenda que aquela voz "perfeita" que você está ouvindo pode não pertencer a ninguém vivo — e que isso, por si só, já é motivo suficiente para pensar sobre os limites da tecnologia no nosso cotidiano.
Resumo rápido: A inteligência artificial já consegue manter a voz de atores falecidos viva nos games — mas os resultados variam enormemente entre uma homenagem respeitosa e um experimento desastroso, revelando que o verdadeiro dilema não é a tecnologia em si, mas a forma como ela é aplicada.
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