Estreou nesta sexta-feira, 7, no Prime Video, o longa-metragem nacional Corrida dos Bichos, produção que imagina um Rio de Janeiro distópico no qual participantes disputam — usando máscaras de animais — uma competição violenta por um prêmio milionário, diretamente inspirada no jogo do bicho. O detalhe que mais chamou atenção nos bastidores, porém, não está no roteiro: o filme foi dirigido por três pessoas ao mesmo tempo, com o retorno de Fernando Meirelles não só à direção, mas também à operação de câmera.
Por que três diretores no mesmo filme?
A divisão não é capricho criativo nem decisão artística isolada. Tem nome e sobrenome: orçamento, prazo e segurança financeira. O conceito original da história pertence a Ernesto Solis, que carregava a ideia havia cerca de 20 anos e já a tinha tentado vender de diferentes formas. Quando o Prime Video finalmente comprou o projeto, surgiu um problema prático: nem Ernesto nem Rodrigo Pesavento, o segundo diretor do time original, tinham longa-metragem no currículo. Pesavento vinha de publicidade e streaming, com domínio de câmera e gramática cinematográfica, enquanto Ernesto acumulava experiência em televisão.
Para um filme de ação com o maior orçamento do estúdio naquele momento, a Amazon pediu um reforço. Foi aí que entrou Fernando Meirelles — não para reescrever a visão do projeto, mas para dar安全感 (segurança) ao time em Los Angeles e, como ele mesmo resumiu, “realizar o projeto do Ernesto”. A divisão final ficou clara: toda a ação ficou com Pesavento, o drama foi dividido meio a meio entre Ernesto e Fernando, e a última palavra sobre decisões criativas permaneceu com o autor da história.
Meirelles voltou a operar câmera depois de anos
Um dos trechos mais reveladores da entrevista é o de Fernando Meirelles contando que, nesse trabalho, decidiu voltar a operar câmera e criar imagens diretamente — algo que ele não fazia havia muito tempo. Para quem acompanha cinema brasileiro, isso tem peso: Meirelles é o diretor de Cidade de Deus (2002) e 300 (2006), entre outros, e sua presença numa produção nacional de grande porte é incomum. A decisão não foi apenas estética; ela ajudou a distribuir responsabilidade num cronograma apertado de dez semanas, que depois perdeu duas semanas antes do início das filmagens.
Sem três diretores trabalhando em frentes separadas, o filme não teria sido entregue no prazo, segundo o próprio Meirelles. É um detalhe que importa para entender como o audiovisual brasileiro funciona hoje: histórias ambiciosas dependem de encaixar em janelas de financiamento apertadas, e qualquer imprevisto no cronograma pode inviabilizar o projeto inteiro.
O que a história do filme diz sobre o Brasil
Antes de qualquer discussão sobre bastidor, vale destacar o ponto de partida criativo. Corrida dos Bichos parte de algo profundamente brasileiro — o jogo do bicho — para construir uma alegoria sobre sociedade, presente, passado e um “jogo social perverso”, nas palavras de Ernesto Solis. O criador do conceito conta que a ideia nasceu quando um produtor franco-português, que trabalhava com Luc Besson, viu uma HQ futurista dele ambientada no Rio e se interessou pela combinação de futuro com a cidade.
Solis tinha clareza do que queria: falar de um futuro muito brasileiro, sem emular estética estrangeira. A premissa do jogo já existia na cabeça dele antes de surgirem obras como Jogos Vorazes e Round 6, que depois chegaram ao público com proposta parecida. A diferença, segundo o diretor, é o recorte local: a disputa não acontece num cenário genérico, mas num Rio de Janeiro distópico onde as máscaras de bichos remetem diretamente à cultura popular brasileira.
O que isso muda na prática para quem assiste?
Para o espectador, o resultado é um filme de ação com cara de produção grande — algo raro no streaming nacional — mas com DNA autoral brasileiro. Ver Corrida dos Bichos no Prime Video dá acesso a uma produção que dificilmente existiria sem o formato de coprodução com a Amazon, e mostra como o streaming internacional pode viabilizar projetos nacionais que o mercado tradicional teria dificuldade de bancar sozinho.
O caso também serve de termômetro para quem se interessa por bastidores de cinema: três diretores numa mesma obra não é redundância, é estratégia para caber em prazo e orçamento sem comprometer a ambição. Foi justamente essa combinação — conceito de 20 anos, equipe multifacetada e necessidade prática de escalar produção — que permitiu ao filme sair do papel.
Se você gosta de ficção científica com pegada social, ou quer entender como funcionam as engrenagens de uma produção grande dentro do streaming, Corrida dos Bichos vale tanto pelo filme em si quanto pela história dos bastidores que o tornaram possível.
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