A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) decidiu alinhar suas competições femininas às regras internacionais e proibiu a participação de mulheres trans em categorias voltadas ao sexo biológico feminino. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (14) e atinge diretamente jogadoras como Tifanny Abreu, oposta do Osasco e campeã da última Superliga Feminina de Vôlei.
O que a nova política estabelece na prática
A medida da CBV não é uma decisão isolada. Ela replica os critérios definidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 26 de março de 2026, além das normativas já adotadas pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e pela Confederação Sul-Americana de Voleibol (CSV). Na essência, a nova regra "limita a elegibilidade nessa categoria exclusivamente às atletas do sexo biológico feminino", segundo comunicado da própria entidade.
Para verificar quem se enquadra nesse critério, a CBV vai usar a triagem do gene SRY, presente apenas no cromossomo Y. Esse é um marcador biológico amplamente utilizado em testes de determinação de sexo biológico — sua presença indica que a atleta seria classificada na categoria masculina, enquanto a ausência libera a participação no feminino. A regra prevê exceções para situações específicas previstas na própria política, mas, no geral, o critério é direto: presença do cromossomo Y = categoria masculina.
A justificativa oficial da confederação é manter o alinhamento entre as regras das competições nacionais e as vigentes no circuito internacional. "Com a mudança dos parâmetros internacionais e da responsabilidade institucional, a CBV buscou manter o alinhamento entre as regras que regem as competições nacionais com as hoje vigentes para as competições internacionais", afirmou Radamés Lattari, presidente da CBV.
Quem é diretamente afetada por essa decisão
O nome mais conhecido do vôlei brasileiro que sentiria o impacto imediato é o de Tifanny Abreu, de 39 anos, que se consolidou como uma das maiores pontuadoras da história da Superliga e foi peça fundamental na campanha do Osasco no título mais recente. Com a nova regra, ela ficaria proibida de atuar nas competições femininas realizadas pela CBV, já que o teste do gene SRY seria obrigatório para validar a elegibilidade.
Tifanny se tornou uma figura central nesse debate no esporte brasileiro. Ela atuava regularmente na Superliga desde sua transição e era constantemente alvo de discussões sobre equidade esportiva, capacidade física e inclusão. A decisão da CBV encerra, na prática, a possibilidade de que novas atletas trans sigam o mesmo caminho no vôlei nacional, e também estabelece o destino das que já estão em atividade.
Vale notar que a regra se aplica às competições sob jurisdição da CBV. Competições organizadas por federações internacionais, como torneios da FIVB ou da CSV, já seguiam esse critério, o que significa que algumas atletas trans brasileiras já estavam, na prática, fora dessas disputas. Agora, o mesmo vale para os campeonatos nacionais.
Por que essa decisão importa agora
O movimento da CBV acontece em um contexto mais amplo de revisão de critérios de elegibilidade no esporte mundial. Desde 2023, entidades como a World Athletics, a World Aquatics e a Federação Internacional de Rugby League já adotaram políticas semelhantes, restringindo a participação de mulheres trans em categorias femininas. O COI, por sua vez, publicou em março de 2026 a chamada "Política de Proteção da Categoria Feminina", que serviu de base para a ação da CBV.
Para quem acompanha o vôlei, o efeito mais visível será em quadra: times que contavam com jogadoras trans em seus elencos precisarão reformular suas estratégias. Clubes como Osasco, por exemplo, perdem uma atacante de alto rendimento, o que pode alterar o equilíbrio técnico da Superliga nas próximas temporadas.
Para o torcedor comum, essa mudança redefine quem ele verá jogando nas competições femininas daqui em diante. E para pais, mães e atletas que sonham com uma carreira profissional, a regra deixa claro que a porta de entrada para a categoria feminina será, a partir de agora, o sexo biológico definido pelo teste do gene SRY — sem ambiguidade.
O que muda na prática para o leitor
Se você acompanha a Superliga ou planeja assistir aos jogos da próxima temporada, vale entender três pontos centrais:
- Critério biológico único: a elegibilidade passa a ser baseada exclusivamente na presença ou ausência do cromossomo Y, avaliada pelo gene SRY.
- Sem exceção para mulheres trans em categoria feminina: mesmo atletas que passaram por transição e hormonioterapia ficam fora do feminino, salvo exceções previstas na política.
- Alinhamento internacional: as regras brasileiras agora seguem o que já vale nos torneios da FIVB e da CSV, então a carreira em competições fora do Brasil também dependeria desse mesmo critério.
Para quem busca acompanhar a discussão sem perder o fio, o ponto-chave é que a CBV não está criando uma regra do zero — está incorporando a tendência internacional que ganhou força nos últimos anos. O debate, porém, está longe de ser resolvido: entidades de direitos humanos, atletas trans e especialistas em bioética continuam questionando a pertinência de testes genéticos como o SRY para definir categorias esportivas, argumentando que o critério ignora dimensões hormonais, sociais e de identidade de gênero.
Enquanto isso, o cenário do vôlei brasileiro se ajusta. A próxima Superliga será a primeira a ser disputada sob a nova regra, e a expectativa é que nomes como Tifanny Abreu precisem repensar seus caminhos no esporte — seja migrando para outras modalidades, atuando em ligas com regras diferentes ou buscando formas de continuar sua contribuição ao vôlei fora das quadras.
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