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BTG Pactual: crédito mais difícil e inadimplência deve piorar

BTG Pactual: crédito mais difícil e inadimplência deve piorar

Juros em alta vão pesar no bolso de quem financia imóvel, veículo ou busca capital de giro para o negócio.

O BTG Pactual, maior banco de investimentos da América Latina, está apertando o filtro na hora de emprestar dinheiro. Em teleconferência realizada nesta semana, o presidente-executivo Roberto Sallouti confirmou que a instituição adotou padrões bastantes conservadores para a concessão de crédito, privilegiando linhas com garantias e menor risco. A fala aconteceu no mesmo dia em que o banco divulgou seu balanço do segundo trimestre, com lucro líquido ajustado de R$ 5,14 bilhões — um crescimento de 22,6% em relação ao mesmo período de 2024.

O cenário "deve piorar antes de melhorar"

Sallouti não escondeu o tom cauteloso. Para ele, o ambiente macroeconômico tende a se deteriorar antes de qualquer melhora. A justificativa passa por uma leitura que já vem sendo incorporada pelo banco há bastante tempo: o nível de endividamento das famílias e do governo está elevado, as taxas de juros continuam muito altas e, em algum momento, essa combinação inevitavelmente pressiona a atividade econômica.

Na visão do executivo, a inadimplência até demorou mais do que o esperado para subir — e esse atraso, curiosamente, foi visto como algo positivo internamente. A leitura é que o gasto público cresceu mais do que o previsto, em especial neste ano, impulsionado pelo ciclo eleitoral, atingindo patamares considerados difíceis de sustentar no longo prazo. "Esse crescimento acelerou com o ciclo eleitoral, atingindo níveis que consideramos difíceis de sustentar no longo prazo", afirmou Sallouti.

O que isso muda na prática?

Para quem busca crédito no BTG, a mensagem é clara: o banco está selecionando mais. Linhas voltadas a clientes com garantia real — como imóveis ou recebíveis — tendem a ser oferecidas com mais facilidade. Já operações em segmentos historicamente mais arriscados, sem colaterais robustos, sofrem com critérios mais rígidos e, em alguns casos, simplesmente não passam pelo crivo interno.

Na prática, isso significa que o tombo na oferta de crédito, que vinha sendo discutido como hipótese, agora ganha um protagonista de peso confirmando a tendência. Grandes bancos costumam servir de referência para o sistema financeiro como um todo. Quando um player desse porte assume postura defensiva, fintechs e instituições menores tendem a seguir pelo mesmo caminho, apertando as condições para o consumidor e para empresas.

Carteira provisionada, mas com olhos abertos

O executivo garantiu que, até o momento, os indicadores de inadimplência observados pelo BTG permanecem saudáveis e a carteira de crédito está bem provisionada — ou seja, com colchão suficiente para absorver calotes. O banco reduziu, de forma antecipada, a exposição a produtos e segmentos de maior risco, justamente esperando o aumento da inadimplência que acabou demorando.

Sallouti foi taxativo ao dizer que o BTG está tão preocupado com o nível de inadimplência quanto o restante do mercado. A diferença é que, segundo ele, a instituição já vinha se preparando para esse cenário antes da concorrência. O posicionamento conservador é justamente uma forma de oferecer crédito e assumir riscos no balanço considerando esse contexto mais adverso. "Acreditamos que esse é um cenário bastante provável. Se ele não se materializar, ótimo", resumiu.

O peso dos gastos públicos na conta

Um ponto central da fala do executivo foi o papel do gasto do governo na sustentação artificial da economia. A avaliação é que, sem esse impulso fiscal, a inadimplência provavelmente já teria subido de forma mais visível. Com os níveis atuais de despesa considerados insustentáveis, a desaceleração é vista como inevitável — embora Sallouti tenha descartado um cenário catastrófico.

Para o leitor comum, o resultado é um cenário de expectativa fria nos próximos trimestres. Selic ainda elevada, endividamento das famílias em patamar historicamente alto e aperto na concessão de crédito formam a equação que pode encarecer financiamentos, reduzir prazos e exigir mais garantias em quem tentar contratar empréstimos — não apenas no BTG, mas no sistema financeiro como um todo.

Vale acompanhar de perto as próximas sinalizações dos grandes bancos e os dados de inadimplência divulgados pela Serasa, Banco Central e Febraban. Quem planeja tomar crédito parcelado, abrir negócio com financiamento ou renegociar dívidas deve se antecipar, já que as condições tendem a ficar mais duras antes de qualquer alívio concreto na curva de juros.

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Jornalista

Mariana Silva

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