Anitta transformou cinco cartas do tarô em cenas de um filme musical de mais de 30 minutos que acompanha o lançamento do álbum EQUILIBRIVM II. Em vez de tratar o oráculo como adereço decorativo, a cantora usou as figuras do tarô como ponto de partida para uma narrativa visual própria — entre rendas, véus, bordados e referências a religiões de matriz africana, orixás e entidades espirituais.
As cinco cartas que viraram personagem
No meio da produção, Anitta deixa de interpretar uma personagem fixa e encarna diretamente cinco arcanos: O Mundo, Dois de Espadas, A Sacerdotisa, A Estrela e Nove de Ouros. Cada um recebeu uma identidade visual construída com intenção, não com aleatoriedade.
O branco predomina em O Mundo e no Dois de Espadas, reforçando ideias de pureza, transcendência e silêncio. A Sacerdotisa aparece envolta em azul profundo — tradicionalmente ligado ao mistério, à introspecção e ao sagrado. O dourado veste Nove de Ouros, traduzindo prosperidade e realização. Já A Estrela explode em cores vibrantes: uma releitura contemporânea de uma carta que costuma ser desenhada com uma mulher nua junto à água, agora convertida em visual luminoso e declaradamente fashion.
A jornada por trás da sequência
Para a taróloga Marisa Solaris, a ordem em que as cartas aparecem não é aleatória: ela desenha um caminho de transformação. A Sacerdotisa abre a sequência como a mulher que silencia para escutar a intuição e encarar as próprias sombras. O Dois de Espadas vem logo depois, representando o momento de impasse — ficar parada também é decidir, mas há um ponto em que seguir em frente se torna inevitável.
A Estrela marca o renascimento: purificação, esperança e reconexão com a essência. O Mundo celebra a integração e o início de um novo ciclo. Por fim, o Nove de Ouros aparece como a recompensa pelo que foi cultivado ao longo do trajeto — abundância que vai além do material e inclui independência, amor-próprio e soberania sobre a própria vida.
O que cada carta significa no tarô tradicional
A taróloga Sabrina Lechugo lê as cartas a partir dos arquétipos clássicos. Para ela, A Sacerdotisa é o arcano da espiritualidade e do oculto — alguém que guarda conhecimento e prefere a discrição à exposição. Dois de Espadas simboliza dualidade e dificuldade de ceder; os olhos cobertos da figura tradicional mostram a recusa em enxergar a realidade. A Estrela, por sua vez, representa a regeneração depois da dor: o renascimento e a coragem de voltar a acreditar na vida, no amor e na própria sorte.
O que essa leitura diz sobre o momento cultural
O tarô vive uma fase de popularização nas redes sociais — e isso aparece em aplicativos de leitura, em comunidades no TikTok, em coleções de baralhos ilustrados por artistas independentes e até em produtos de moda e beleza que se apropriaram da simbologia. Anitta entra nesse fluxo, mas com um diferencial claro: em vez de apenas citar as cartas, ela entrega um trabalho visual coerente, com pesquisa simbólica e diálogo respeitoso com tradições espirituais afro-brasileiras.
Para quem quer começar a entender o assunto sem necessariamente marcar consulta com um tarólogo, vale conhecer o básico. As 78 cartas do tarô se dividem em dois grupos: os 22 arcanos maiores, que tratam de grandes temas e jornadas da vida (A Sacerdotisa, A Estrela e O Mundo estão aqui), e os 56 arcanos menores, ligados ao cotidiano, divididos em quatro naipes — espadas, copas, paus e ouros. Cada naipe tem correspondência com um elemento, uma estação do ano e uma área da vida: espadas falam de decisões e conflitos, copas de emoções, paus de ação e criatividade, ouros de trabalho e bens materiais.
Por que isso importa além da moda
Quando uma artista do porte de Anitta constrói uma narrativa visual citando orixás e entidades sem caricatura nem apropriação superficial, ela ajuda a tirar o tarô do lugar de "coisa de cigana de novela" e o reposiciona no campo da cultura pop, da arte e da auto-reflexão. O resultado é um convite para que mais gente se interesse pelo tema com seriedade — ou pelo menos com curiosidade informada.
Se a ideia é começar a estudar, três caminhos funcionam bem para iniciantes: ler um livro introdutório (o trabalho de Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa é um dos mais usados como porta de entrada), seguir perfis de tarólogos que explicam cartas em linguagem acessível nas redes sociais, ou investir em um baralho ilustrado por artistas brasileiros, que costumam trazer representações mais diversas do que os baralhos tradicionais europeus do início do século XX. Outra opção prática é usar aplicativos confiáveis que permitem tirar uma carta por dia e ler o significado com calma, antes de avançar para tiragens mais completas.
O que Anitta mostra em Equilibrium II é que o tarô pode ser tratado como linguagem estética sem perder a profundidade simbólica — e que moda, espiritualidade e arte, quando bem costuradas, contam histórias que ficam na memória.
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