Por que a América Latina se afasta do Tribunal de Haia?
Venezuela já anunciou sua saída, e a Colômbia estaria avaliando seguir o mesmo caminho, segundo fontes ouvidas pela DW Brasil.
A Venezuela formalizou no dia 24 de julho de 2025 o pedido de retirada do Tribunal Penal Internacional (TPI), o primeiro tribunal permanente do mundo dedicado a julgar genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crime de agressão. Com a decisão, o país se tornou o primeiro da América Latina a deixar formalmente a corte — e abriu uma conversa desconfortável sobre o futuro da justiça internacional na região. Relatos indicam que a Colômbia já estaria avaliando o mesmo caminho, o que levanta um sinal de alerta: estamos diante de uma tendência ou de casos isolados?
Esse tema importa porque o TPI existe como uma espécie de "última instância" para vítimas de atrocidades que não conseguem justiça em seus próprios países. Quando um Estado decide sair do tribunal, ele está dizendo que prefere resolver — ou deixar sem resolução — seus conflitos internos sem a supervisão de uma corte internacional. Em um continente marcado por ditaduras, desaparecimentos forçados e violações sistemáticas de direitos humanos ao longo do século XX, esse afastamento representa uma mudança simbólica relevante.
No dia a dia, o impacto parece distante — e é exatamente aí que mora o perigo. A maioria das pessoas nunca vai precisar do TPI diretamente, mas o tribunal funciona como uma barreira invisível contra a impunidade em larga escala. Quanto mais países se retiram, mais fraco fica esse mecanismo, e mais fácil fica para governantes responderem a denúncias de atrocidades com um simples "não reconhecemos essa jurisdição". É o tipo de erosão que não se sente amanhã, mas se paga daqui a alguns anos, quando crimes graves ficarem sem resposta formal da comunidade internacional.
Vale lembrar que 28 países da América Latina e do Caribe ainda integram o TPI, o que mostra que a região continua, em números, uma das mais engajadas com a justiça penal internacional do mundo. A Venezuela, aliás, foi um dos primeiros países a ratificar o Estatuto de Roma em 2000, antes mesmo de o tribunal começar a funcionar. Por isso, a saída atual é vista por especialistas como um "retrocesso" — nas palavras do advogado José Ugaz, ex-presidente da Transparência Internacional. Ainda assim, ele próprio reconhece que é cedo para falar em mudança regional: a decisão pode ser mais política do que estrutural, especialmente porque a Promotoria do TPI mantém aberta uma investigação contra o governo de Nicolás Maduro por supostos crimes contra a humanidade.
Para entender o tamanho do que está em jogo, pense no TPI como um tribunal que só age quando o sistema judicial de um país não consegue ou não quer investigar crimes gravíssimos. Sem ele, vítimas de massacres, perseguições ou detenções arbitrárias em massa perdem um canal importante de reparação. A decisão de sair não acontece no vácuo: geralmente está ligada a situações em que autoridades do país se sentem diretamente ameaçadas por investigações em curso — como é o caso venezuelano.
O que isso muda na prática?
Na prática, a saída da Venezuela não anula automaticamente as investigações já abertas contra autoridades daquele país — o TPI manteve competência sobre atos cometidos enquanto o país era membro. Mas daqui para frente, novas denúncias de crimes graves ocorridos em território venezuelano podem encontrar obstáculos maiores. Se outros países latino-americanos seguirem o mesmo caminho, o efeito cumulativo será o enfraquecimento de um sistema que, apesar das críticas, continua sendo o principal freio internacional contra a impunidade em massa. Para o cidadão comum, o recado é claro: acompanhar essas movimentações é entender por que a regra "crimes graves não ficam sem julgamento" está sendo repensada — e por quem.
Resumo rápido: A Venezuela se tornou o primeiro país latino-americano a deixar formalmente o Tribunal Penal Internacional, e a Colômbia pode ser a próxima — movimento que preocupa especialistas porque enfraquece o principal mecanismo global de julgamento de atrocidades em massa.
Continue acompanhando o Portal Top Ofertas Brasil
- Instagram: @top_ofertas_brasil_oficial
- Blog: Ver mais conteúdos



